quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Suécia amazônica


            
Nós, paraenses, somos um povo sofisticado. Nunca elegeríamos alguém que já cometeu qualquer tipo de fraude, como se passar por médico sem ter diploma. Uma afronta a qualquer bom senso. Também jamais permitiríamos que houvesse em nosso território algo tão infame quanto o trabalho escravo. Jamais. Outra coisa que nunca faríamos: permitir que a política seja feita por coronéis, no estilo mais bizarro e caricato que só a América latina sabe produzir. Repudiamos qualquer tipo de paternalismo e coronelismo na política. Queremos gente honesta, discreta e capaz.
            Quanto à convivência com os vizinhos, somos muito sensatos: sabemos que um trabalhador precisa descansar, então nunca tocamos música alta após as dez da noite. Também nosso excelente transporte público é silencioso, agradável e cheio de profissionais qualificados e muito bem educados. Respeitamos o silêncio nos ônibus, assim ninguém é obrigado a ouvir músicas de que não gosta.
            Tudo isso aliado à nossa estrutura de primeiro mundo de esgoto, água e coleta de lixo nos deixa aptos a receber qualquer evento como copa do mundo ou olimpíada. Somos limpos, organizados e bastante focados em tudo o que fazemos. Honramos nossas tradições cabanas, lemos nossos escritores com a devida atenção, sabemos nossa história com detalhes, e planejamos nosso futuro de maneira lúcida e altiva.
            Cuidamos muito bem de nossos times de futebol, com administrações competentes que os colocam sempre entre os melhores do país, levando apenas alegria às imensas torcidas.
            Em ano de eleição continuemos assim, essa verdadeira Suécia amazônica. 




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terça-feira, 29 de junho de 2010

Superstição não é só uma chatice: é um perigo

Tudo bem, estou torcendo pelo Brasil e envolvido no clima da copa. Mas o olho segue aberto para os exageros. Lembremos sempre: é só um jogo. E, muito importante: não importa o que façamos, não importa a cor de nossa cueca nem o lugar onde sentemos, não vamos influenciar o resultado do jogo. Só quem pode influenciar isso são os jogadores, o técnico, enfim, quem estiver diretamente envolvido.
Torcer, sim, mas entrar nessa obsessão midiática por coincidências e superstição não. O jogo quem ganha são os jogadores em campo, com esforço, técnica, garra. Só isso. Nós somos meros expectadores. Não importa o número de letras do nome de ninguém, nem o planetinha tal, nem a cor tal, nem a macumba tal. São os onze lá dentro do campo quem ganham, e nós aqui, torcemos. Simples assim.
Superstição é algo muito perigoso. Quem acredita e leva a sério a astrologia, por exemplo, não é muito diferente de um racista. Explico: pré-julgar alguém por ter nascido em tal signo é o mesmo que pré-julgar pela cor da pele. E não me venham com essa ladainha de que nós sempre pré-julgamos, não vamos desviar o foco aqui. Ter nossas opiniões é uma coisa, mas influenciar diretamente o projeto de vida de outra pessoa é bem diferente.
Imaginem gente deixando de conseguir um emprego porque o chefe não gosta do signo tal, ou porque a numerologia do nome do candidato não é auspiciosa. É o mesmo que não contratar um baita profissional pelo fato de ele ou ela ser gay ou negro, ou ter orelha de abano ou não gostar de doce de leite.
É chegado numa mandinga, irmão? Tudo bem, seja feliz. Há algo de folclórico e engraçado nisso, sem dúvida. Mas não deixe de ver a beleza e a complexidade das pessoas. Não deixe de duvidar, e de ter humildade para aceitar que muitas das coisas que acontecem podem não ter conexão causal entre si, ou estar simplesmente além de nossa capacidade de interferência. 

(Minha contribuição para o "Cala a boca, Galvão")
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dá-lhe, Dunga!


Como lidar com os gigantes? Nosso vizinho Dunga segue um caminho arriscado enfrentando os tubarões da todo-poderosa Globo. Bate de frente, chega para dividir, encara. Admiro o estilo dele. Direto, simples, objetivo e comprometido. Só que a Globo há décadas constrói a mentalidade de boa parte do país. Pode erguer ou destruir reputações. Mas cá ente nós, é muito bom quando alguém tem coragem de ir contra a Globo ou a CBF, não é? Quando alguém mostra a coragem que não temos. Dunga é o cara. Ganhando ou perdendo, não deve durar muito no comando, mas eu sei é que ele é o cara. Para ser meu maior ídolo agora só falta abrir a boca contra a corrupção e a total sujeira que há décadas dominam a CBF e esse tal presidente vitalício dela, cujo nome de tão sujo é melhor nem escrever. Queria ver o Dunga rugindo contra ele. 



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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Nós e o senso comum




Se vocês forem reparar bem, nós passamos boa parte de nossa vida tendo que ajustar nosso vocabulário e nossas referências ao senso comum. Nos acostumamos tanto a estreitar a linguagem e as citações para nos comunicar, que chega a ser um alívio falar com gente que nos entende. Por isso tanta gente que leu uns três livros acaba ficando arrogante e se achando o máximo, como se pertencesse a uma elite privilegiada. O senso comum brasileiro tem nível muito baixo, mesmo dentro da realidade latina. Compare o nível de linguagem e de assuntos de, digamos, um taxista argentino ou uruguaio e um brasileiro. Com raras exceções, perdemos feio. Raramente vamos além do lugar comum, da frase feita, do raciocínio raso e dos assuntos de sempre.
Nós que conseguimos ir além disso, costumamos ter duas atitudes: ou a do arrogante que arrota sua superioridade (quem freqüenta a universidade deve conhecer muita gente assim), ou do isolado e incompreendido que acaba se achando inferior aos outros por não se enquadrar, não dominar os códigos de socialização.
Proponho que não tomemos medidas drásticas. Admitamos que sim, lidamos com material intelectual mais sofisticado que a média, mas isso em si não nos torna especiais nem inferiores. Quando tivermos a tentação da arrogância, lembremos que de nada vale a inteligência sem o respeito aos outros e uma atitude ética. Quando nos sentirmos tristes e isolados, temos que saber que, sim, há outros como nós, que lidamos com naturalidade com o mero fato de ler um livro e discutir um filme, de procurar boa música, de dar alguns passos além do senso comum. E, finalmente, não olhar para o senso comum com desprezo nem medo nem condescendência. Quem foi criado no subúrbio e tentava ler lá seu Dostoeivski enquanto o vizinho ouvia pagode no último volume sabe do que eu falo. Só que o mesmo vizinho vai lá na tua casa e te ajuda a resolver um problema que tu não conseguias, como a pia vazando ou o interruptor de luz que dá choque.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Provando da própria razão


Agora entendo como se sentem as pessoas que amam um time ao lerem comentários racionais e bem construídos sobre o futebol. Agora está tudo mais claro: eu amo a seleção brasileira, contra minha vontade, contra qualquer prognóstico racional, independente de qualquer contexto. Assim como a maioria dos torcedores amam apaixonadamente seu time, eu amo essa camisa amarela. Não importa quem seja o técnico nem os resultados, é algo que a razão não dá conta de explicar.
Posso ser racional sobre Grêmio e Inter, Remo e Paysandú, mas quando toca o hino nacional e o esquadrão verde e amarelo entra em campo tudo adquire uma dimensão diferente. Quem já teve a experiência de ser brasileiro na Argentina ou em outro país de cultura futebolística forte pode entender. Quem, quando criança, colocou bandeirinhas na rua, pintou os muros e o asfalto, vestiu-se e ergueu a bandeira pode entender. Quem vibrou com um golaço do Zico, do Romário ou do Ronaldo vai entender.
Eu torço por esse time, e apoio a coerência de Dunga. Mesmo sem nosso conterrâneo Ganso, esse é meu time. Não acredito na aparente dicotomia entre futebol força e futebol arte: o que importa é ter técnica e garra, o resto vem junto. Arte e força não são excludentes. Paixão e racionalidade também não.


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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Quando a bola rolar

A primeira copa do mundo que lembro ter acompanhado foi a de 82, com o super time de Falcão, Sócrates e Zico. A seleção que foi derrotada por Paolo Rossi. Lembro da empolgação a cada jogo, de minha camisa amarela, de como os passes de bola eram perfeitos, estilosos, como o jogo fluía. Hoje em dia há essa idéia estranha de que futebol arte é sinônimo de frescura e firulas desnecessárias. Futebol arte é eficiência, é técnica, é dominar a arte do futebol. Jogar bem. A vitória e a derrota fazem parte do jogo, às vezes são justas e às vezes não são. Mas futebol arte não é abrir mão de vencer para fazer gracinhas. Futebol não é uma guerra: é só um jogo.
Naquela época para o Alan criança futebol era magia e encanto. Hoje é um interesse, é filosofia, é um equilíbrio entre envolvimento e alienação. Engaja bem mais minha razão que meu sentimento. Raramente, em momentos especiais, a chama da emoção e do arrebatamento ainda brilha, ainda tenta dizer que está presente. Mas a criança sonhadora que eu era virou este adulto que luta e tem pouco tempo para devaneios.
É copa do mundo. A seleção brasileira para mim, ao contrário da maioria dos torcedores, sempre foi muito mais importante que os times. Acompanhei Grêmio e Flamengo sendo campeões do mundo nos anos 80, foi emocionante. Mas a seleção brasileira sempre teve algo a mais, algo além, que os clubes não proporcionavam. Nem mesmo quando o Paysandú foi campeão da copa dos campeões.
É copa do mundo. A derrota de 82 foi mais emocionante que as vitórias de 94 e 2002. Talvez pelo fato de ser o primeiro olhar da criança, a primeira experiência. A gênese de uma sensação.
É copa do mundo. Eu, que venho do Brasil que não tem vergonha de ser Brasil, do país que não tem pretensão alguma de ser europeu, e que se encontra muito bem na realidade da América latina, não me empolgo ainda. Eu, que amei essa camisa amarela mais que qualquer outra, que torço na contramão e penso demais quando deveria apenas sentir, não me contagiei. Eu, que ouso abrir a boca para dizer que não sou branco, que meu sangue e minha vida são decididamente mestiços, eu acompanho os fatos. Observo.
Glória ou indiferença, alienação ou revelação, o futebol está aqui, e temos que seguir aprendendo a lidar com ele. Não tenho respostas prontas, felizmente. Talvez as tenha quando começarem a tocar o hino e quando a bola rolar.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Mais drops amazônicos


Bacuri, cupuaçu, muruci, taperebá, pupunha...a variedade de frutas é imensa. A pupunha é um caso interessante: a aparência não tem nada a ver, mas o gosto lembra o do pinhão. Come-se assada, e é muito boa para acompanhar o café.



Cabanagem – revolta popular que começou exatamente no mesmo ano da guerra dos Farrapos: 1835. Os cabanos chegaram a tomar o poder várias vezes, mas por falta de lideranças expressivas a coisa nunca andava. Batista Campos, um dos líderes intelectuais, morreu pouco antes da revolta estourar, por uma prosaica barba mal feita e gangrenada. Curiosamente, a revolta não faz parte do imaginário popular como os farrapos no sul. Para o paraense médio é apenas algo distante, que vem dos embolorados livros de história.
Um dia, com a experiência adquirida por aqui, vamos voltar para lá e criar o CTP, o Centro de Tradições Paraenses, e transformar os irmãos Vinagre, Batista Campos, Felipe Patroni e todos os cabanos em heróis épicos. 
Outra curiosidade: um dos livros mais interessantes sobre a Cabanagem foi escrito pelo historiador gaúcho Décio Freitas, uma obra bastante esclarecedora e bem escrita chamada "A miserável revolução das classes infames".





Alguns drops de nossa semi-invisível cultura amazônica


1- Tacacá – espécie de sopa forte, feita de tucupi (líquido amarelo extraído da mandioca) e outros ingredientes. Um deles faz os lábios tremerem, dando um barato interessante. O tacacá é servido em uma cuia, a qual é feita da outra parte do porongo, oposta à que se faz a cuia do chimarrão. Ou seja, tem formato de uma bola de futebol partida ao meio.

2- Eneida de Moraes – escritora paraense muito refinada, uma “adorável anarquista”. Rebelde, sutil, delicada, forte. Viveu muito tempo no Rio de Janeiro, onde atuou como jornalista e cronista. Chegou a ser homenageada por escolas de samba de lá e de Belém. Livros de destaque: Aruanda e Banho de cheiro.

3- Por que a Amazônia não é nordeste: porque a floresta é bem diferente do sertão. Porque falamos tu, ao invés de você. Porque compartilhamos um imaginário pan-amazônico com a Colômbia, a Venezuela e alguns países do Caribe, assim como o sul compartilha o imaginário do Pampa com o Uruguai e a Argentina. Porque somos da água, e não da terra. Somos Gabriel García Marques e Milton Hatoun, mais que João Cabral de Melo Neto. Porque respeitamos e admiramos nossos primos nordestinos visíveis, mas seguimos firmes em nossa invisibilidade. Porque temos olhos amarelos. 



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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Eu sou Chimamanda, eu sou Zitarrosa

Eu não vivo em um mundo de polaridades marcadas e inquestionáveis. Uma hora sou rock, outra sou milonga. Uma hora sou Remo, outra hora sou Paysandú. Não acredito nem no PT nem no anti-PT. Não sou crente nem ateu. Branco nem negro.
Meu mundo não tem apenas dois lados: tem infinitas facetas, é complexo e mutante. Está em construção, está em expansão. Nem melhor nem pior: meu.
Quem quiser viver em um mundo de escolhas certas e inquestionáveis, muito bem, que viva.
Mas eu vivo em um continente de possibilidades. Um país de múltiplos sentidos.
Por isso não posso ser do Norte nem do Sul: o mundo me chama, o mundo imenso me chama e me diz: filho.
Por isso sou Minas Gerais. Por isso sou a síntese impossível. Por isso, nem sou e continuo sendo.
Converso com Walt Whitman surfando vagões de trem. 
Voando sobre Budapeste, tomo chá com Alfredo Zitarrosa e envio cartões postais a Chimamanda Ngozi Adichie. 


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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Garra e malandragem são necessárias









Nós, homens adultos, frequentemente desprezamos os jovens, os chamamos de “moleques”. Pensei nisto ontem após a vitória dos meninos da Vila sobre os homens do Grêmio. O tricolor gaúcho, valente, glorioso e aguerrido, sucumbiu mesmo jogando bem (o primeiro tempo) ante à força ofensiva dos meninos do Santos. Em especial notei como bateram e agrediram o Neymar, o mais franzino de todos. O futebol atual, jogo para homens, não admite que um moleque fracote venha se meter a engraçadinho. Então meta-lhe porrada para ele aprender...
            O futebol é um jogo: emocionante, interessante, curioso, mas apenas um jogo. Não é uma paixão, não é a vida. É um jogo que acompanho agora com interesse renovado. E se não é a coisa mais importante da minha vida, não tenho por quê ficar irritado quando alguém faz uma suposta “molecagem”, quando joga com alegria. Como o que mais importa na minha vida são meu trabalho, as pessoas próximas, a arte e o conhecimento, como o esporte e a política são esferas periféricas, eu posso aprender a rir. Não é uma guerra, não são soldados defendendo uma causa épica: é um jogo. E no jogo, a malandragem, a sutileza, a leveza, às vezes valem tanto quanto a garra e a disciplina.
            Admiro muito a garra e a força do Grêmio, mas ontem elas não foram suficientes. Que nós, homens, aprendamos estas lições: não desprezar a juventude e a alegria, o improviso e o senso de humor em nome de uma suposta guerra. A guerra mesmo é a guerra da vida, e nela um pouco de malandragem e alegria na medida certa garantem nossa sobrevivência em tempos difíceis. 


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terça-feira, 18 de maio de 2010

Quem não concorda comigo é hipócrita?

Ontem escutei mais uma vez esse surrado argumento. Funciona assim: escolhe-se uma opinião pessoal (por exemplo: gostar de fofocas sobre celebridades), aplica-se a todas as pessoas e afirma-se que no fundo todos somos assim, e quem não admite é por hipocrisia. Tal argumentação, além de falaciosa, é extremamente autoritária. Não admite possibilidade alguma de divergência de opinião que não seja por má fé. Ninguém, no exemplo citado, pode simplesmente não se empolgar com a vida alheia sem ser hipócrita e pseudo-intelectual.
A generalização que ouvi foi sobre ser possessivo em uma relação: estava lá a mulher de um famoso poeta local na televisão chamando todos que não pensam e agem como ela de hipócritas. O tal poeta também lá estava, corroborando tudo e criando um clima de polemiquinha. Interessante que a poesia ande tão mal das pernas em nossa sociedade que precise desses golpes midiáticos.
Mas, é claro, quem não concordar com o que eu escrevi aqui é porque é hipócrita, porque no fundo tudo o que eu digo é a mais inquestionável verdade. Bazinga!

terça-feira, 11 de maio de 2010

O que falta para essa gurizada?

Envelhecer deve ser isso, então: achar que a música que a gurizada ouve é só barulho. Quando pensamos isso, estamos começando a ficar velhos. E a gurizada ouve umas músicas sem pé nem cabeça, com um cara de cabelo lambido berrando umas letras melosas. Será que era isso o que meus pais achavam quando eu ouvia Ramones aos quinze anos? Uma barulheira sem sentido
Sim, eles ainda têm guitarras, pesadinhas até. Têm bateria de verdade, são esforçados...mas falta algo. Falta letra, falta densidade poética, falta não ostentar o sofrimento como uma coisa bonitinha e fofa. Sofrer não é bonitinho: é foda, é duro. Comparemos uma banda como Joy Division, que eu ouvia na adolescência, com as de agora, em termos de letra: covardia pura, são mundos muito diferentes. Não adianta nem tentar.
Vamos ver se nessa década que agora começa nosso velho rock'n'roll vai voltar mais inspirado, e se a gente vai poder curtir o mesmo som que nossos sobrinhos ou filhos curtem. Será?



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terça-feira, 4 de maio de 2010

Playing for Change

Continuando com a campanha pela Paz na Internet, trago uma bela canção tocada por músicos diferentes em vários países. Esse projeto é bem interessante, e tem muito a ver com o que penso hoje em dia. Paz não é pieguice, é atitude. Enjoy it.





segunda-feira, 26 de abril de 2010

Pela paz na Internet


Na internet estamos habituados a ler todo tipo de xingamento e discurso de ódio, mas no convívio cara a cara em geral somos mais civilizados. Uma leitura possível sobre essa contradição seria a de que no fundo somos todos bestas agressivas e preconceituosas, e essa “verdade essencial” se manifesta quando não temos o olho no olho. Outra leitura tentaria dar conta dos tipos de discurso específicos para cada contexto, sem se importar com “verdades essenciais”, mas analisando detalhadamente as condições de produção desses discursos. Prefiro a última, evidentemente.
No anonimato de nossos quartos facilmente cedemos às tentações de nos sentirmos poderosos e donos da verdade, sem precisar encarar um conflito de fato. Bom, sabendo disso, e sem querer entrar no campo da análise de discurso, venho propor o seguinte: que a Internet seja como um salão de festa. Explico. Que tenhamos ao escrever aqui neste espaço os mesmos cuidados e ponderações que temos quando estamos em um aniversário em casa de gente que não conhecemos muito bem.
Já há gente demais no mundo “desabafando”, precisamos ir além disso. Vamos desabafar com amigos, parentes, psicólogo, autoridade religiosa, conforme o gosto de cada um, mas vamos deixar este espaço mais limpo, mais criativo, cheio de idéias legais ao invés dessa agressão banalizada.
Eu não respeito quem “tem coragem de dizer o que pensa”. Respeito quem sabe a hora de falar e a hora de calar. Respeito quem abre mão de ficar gritando sua opiniãozinha de criança mimada aos quatro ventos, quem sabe lidar com o silêncio. Quem sabe cair como as folhas nestas tardes curtas de outono. 






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quarta-feira, 14 de abril de 2010

O senso comum é tri violento


Será que a única coisa que tem essência é a baunilha? Que tudo o que somos é complexo, multifacetado e construído socialmente, que não há uma essência metafísica imutável? Em caso afirmativo, abre-se um campo imenso para a liberdade individual. Imaginem: a cor da pele é apenas um dado genético, nada diz sobre o caráter, as potencialidades da pessoa. O time para o qual se torce, o lugar onde nascemos, a religião ou partido político ao qual aderimos...tudo apenas pequenos elementos que se perdem na complexidade que forma um ser humano. Rotular é isso: escolher aleatoriamente um desses milhares de elementos que nos compõem e dizer que ele é o que de fato nos define.
O que me define como pessoa pode ser uma tarde em que olhei a chuva na Praça da República, mas como isso vai caber no rótulo? Ou o esforço que fiz para comprar um apartamento, o fato de preferir manteiga a margarina... de todo o amontoado por vezes caótico de experiências, sensações, valores e preferências que carregamos, e tudo o que esquecemos, é que falamos quando nos referimos a nós mesmos. E isso tudo pode mudar muito em dois, três ou nove anos.
Deixemos a essência para a baunilha, e tentemos olhar o mundo de modo menos apressado. O senso comum, que nos leva a buscar respostas simples e confortáveis, carrega consigo uma violência real e simbólica muito grande. A preguiça e a má vontade para com a complexidade do mundo têm trazido conseqüências terríveis, a história é rica em exemplos. O senso comum nos leva a excluir, desprezar, ridicularizar e fechar portas.
Ir além disso dá trabalho, eu sei, mas vale a pena: ampliar ao invés de reduzir. Expandir e incluir, ao invés de limitar e barrar. A diferença, ao invés da monótona ditadura dos iguais, o mundo como ele é, não como nossos pais disseram que deveria ser.

domingo, 4 de abril de 2010

Délibáb




Já é uma tradição escrever algo sobre o primeiro vento do outono. Hoje, 4 de abril, o clima volta a ficar civilizado de novo. E este ano uma bela novidade: disco novo de Vítor Ramil. Treze anos depois do antológico Ramilonga, Vítor lança um trabalho só com letras de Borges e do poeta gaúcho João da Cunha Vargas, revisitando e ajudando a recriar o imaginário da milonga. Para aqueles que (como eu) consideram Ramilonga seu melhor disco, este trabalho novo chamado Délibáb é um prato cheio.
Vítor faz milonga do sul e do mundo, com uma entonação própria. Ele não grita, não é ufanista, não quer mostrar que é machão e rei da cocada preta. Ele é sutil. Ele é inquieto e paciente, e vem depurando seu som ano após ano, com disciplina e método, bem ao estilo de sua estética do frio. Não é exagero dizer que é um dos maiores compositores de música brasileira de nossa era.
Nos últimos vinte anos já tive o privilégio de ver e conversar com ele várias vezes, seja em Belém ou em Porto Alegre. E a cada vez sinto o amadurecimento de uma proposta estética, de um artista como poucos em atividade. Ele não foge da teoria, mas também não se deixa ficar cerebral e intelectualóide demais.
Quando falei a ele que vim do norte e me aquerenciei aqui pelo sul, ele disse: “igual o personagem do meu livro”. De certa forma somos personagens de livros de Vítor Ramil, ou talvez ele seja um personagem de um livro nosso. Como alguém da Amazônia pode entender e sentir a milonga como se fosse uma coisa sua, tão próxima como um suco de cupuaçu? De alguma maneira misteriosa não só eu, mas a cidade de Belém tem desenvolvido há décadas, desde aqueles antológicos shows no Centur no final dos anos 80, uma relação peculiar com Vítor Ramil. Fora do Rio Grande do Sul é lá o lugar em que ele mais tem público, que mais quer ouvi-lo e entendê-lo. Isso me causa orgulho.
Ouvi o disco novo apenas duas vezes, pouco ainda para arriscar comentários. Há que se ter paciência, que ouvir com atenção, sentindo finalmente o vento de outono que leva embora aquele verão infernal. Chama a atenção, evidentemente, ele ter um convidado de luxo como Caetano Veloso, e a bela regravação de Deixando o pago, cujos versos encerram este comentário.

“alcei a perna no pingo

e saí sem rumo certo
olhei o pampa deserto
e o céu fincado no chão
troquei as rédeas de mão
mudei o pala de braço
e vi a lua no espaço
clareando todo o rincão

e a trotezito no mais

fui aumentando a distância
deixar o rancho da infância
coberto pela neblina
nunca pensei que minha sina
fosse andar longe do pago
e trago na boca o amargo
dum doce beijo de china...”



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quarta-feira, 31 de março de 2010

Amazônia: a grande nação invisível

Em ano de copa do mundo nos questionamos sobre a identidade. Sou brasileiro, e de uma grande região invisível: a Amazônia. Invisível porque aqui no sul pouquíssima gente sabe a diferença entre Amazônia e nordeste, então estou condenado a ser “nordestino”. Nada contra, claro, mas é assim, tenta imaginar a cena: tu é gaúcho, mas tu mora em um lugar onde nove em cada dez pessoas te chamam de paulista. Estranho, não é? Um deslocamento de significado.
Para a maioria dos brasileiros a floresta existe, mas as pessoas da Amazônia não. Quem se importa se há quase dois milhões em Manaus e outros dois milhões em Belém? A cultura amazônica é periférica e semi-invisível, enquanto que a do vizinho nordeste é bem presente na mídia e na cabeça das pessoas.
Pouca gente imagina a alegria que tenho quando digo que sou de Belém e a pessoa diz “Ah, sim, região amazônica”. Aconteceu esta semana, e a pessoa até sabia detalhes da cultura de nossa região. Viva ela!
Um dia a Amazônia vai existir para o Brasil, e vai ser bem mais do que uma mera floresta a ser protegida. Um dia o Brasil vai notar que tem gente lá, muita gente, com uma cultura e uma cara próprias, com uma maneira de falar, uma literatura (Viva Milton Hatoum que nos representa tão bem), música, culinária, enfim, todos os elementos que formam um meio cultural bem peculiar. E bem diferente dos irmãos nordestinos, que respeito e admiro muito, mas que têm lá sua riqueza própria. 



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terça-feira, 30 de março de 2010

Filho pródigo?


Interessante o jogo entre o São José de Porto Alegre (o simpático Zequinha) e o Inter. O time teoricamente pequeno deu um baile no grande. Foi superior em todos os sentidos, e tudo no mesmo estádio onde assistimos o antológico show do REM. Com essa síndrome nacional de paixão pelo Big Brother, volto a considerar que a paixão pelo futebol é algo mais profundo, que acompanha as pessoas pela vida toda, que cria uma história. Não é efêmera, fabricada e de curta duração, mas tem nuances, é comovente, patética e profundamente humana. Primeiros passos de volta ao futebol, então, vamos ver se o retorno se concretiza. 



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Viva Ricky!

As ONGs aplaudem, e este blog idem, a atitude de Ricky Martin. Saindo do armário ele se torna mais um ícone na luta pela democracia no mundo. Viva Ricky, viva a diversidade, e como sempre, uma banana podre para os conservadores e provincianos.



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segunda-feira, 15 de março de 2010

Fim da novela Itautec


Por coincidência a Itautec me ligou dizendo que o laptop estava pronto exatamente no dia em que postei o comentário abaixo. Terão eles lido minha reclamação e prontamente ido satisfazer o cliente, ou tudo é apenas coincidência mesmo? De qualquer modo fica o registro: 45 dias na assistência técnica, de 28 de janeiro a 15 de março. Como será com as outras marcas?

O rio do rock tem vários afluentes

E os anos 80, afinal? São uma década perdida e vazia para o rock, na qual os teclados brega deixaram as guitarras de lado? Uma década em que os cabelos esvoaçantes e as roupas coloridas só perdem em mau gosto para os emos de agora? Pretendo desenvolver aqui porque sim, e porque não acreditar nestas opiniões.
Sim: há muita coisa ruim, mal produzida, tanto no rock quanto na MPB da época. Muita coisa que odiávamos então, agora subitamente adquire um ar de cult só porque nos lembra a nossa adolescência. O tempo suaviza a amargura.
Não: há muita coisa visceral para o mundo do rock, ainda hoje influente. Algumas das melhores bandas dos anos 2000 como Strokes e Interpol têm seu som calcado nas coisas boas dos anos 80. Pixies, Smiths, Cure, U-2, R.E.M., entre tantos outros, ainda fazem tremer as caixas de som com guitarras, baixos e baterias que demonstram a continuidade do bom rock que vem desde os anos 60 e se insinua até hoje.
Falando em linha evolutiva: os anos 60, por maravilhosos que tenham sido, também geraram muita coisa brega e irritante. Idem para todas as outras décadas, e escolher gostar mais de uma ou outra é questão de recorte: meus anos 70 são a disco music, o progressivo, o glitter, a new wave ou o punk? Qual a conexão que desejo fazer com o meu presente?
Falando explicitamente: todas as décadas do nosso amado rock têm seus tesouros, seus clássicos e seu lixo. Algumas vezes o lixo alcança mais a mídia (a atual geração emo), outras vezes as jóias são atiradas em arena pública (Os Beatles sendo perseguidos por fãs histéricas), mas está tudo aí: misturado, fervilhando e pulsando, nosso adolescente de 60 anos que nasceu negro e americano, de mãe soul e pai blues, foi criança e adolescente na Inglaterra, já foi épico e anárquico, já pregou a paz, a psicodelia, a futilidade e a subversão, foi sacana e ingênuo, malandro e porralouca, sério e politicamente correto.
Os anos 80 não são apenas um buraco de efemeridade. São um braço de rio denso e rico, da grande corrente que desde os anos 50 tornou nosso mundo mais dinâmico e pulsante, e que se chama rock and roll.



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sexta-feira, 12 de março de 2010

Cuidado com a Itautec


Amigos, cuidado com a  Itautec. A máquina em si é boa, mas a assistência técnica é ridícula. Meu notebook deu problema e entrei na assistência técnica no dia 28 de janeiro, e até agora nada foi resolvido (está na garantia). Quarenta dias! Eles dizem que falta uma peça, e que têm que esperar que a Itautec mande. A Itautec não responde emails, o 0800 está sempre (mas sempre mesmo) ocupado, e a sensação de frustração e impotência é o que espera quem optar por comprar esta marca. Comprem Dell, Sony, Positivo, o que for, mas passem longe dessa empresa totalmente despreparada, e que só tem descaso e desprezo por seus clientes. 
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segunda-feira, 8 de março de 2010

"El secreto de sus ojos" se llevó el Oscar

Os melhores filmes do Oscar costumam estar na categoria de filme estrangeiro, por uma questão estatística: nela concorrem filmes de centenas de países, enquanto que nas outras apenas os de língua inglesa entram. Este ano consegui assistir A Fita Branca e O Segredo de seus olhos. O primeiro, uma busca inquietante sobre o surgimento da violência entre as crianças de uma pequena vila alemã no início da primeira guerra, é uma peça cinematográfica impactante, lindamente fotografada e que merece ser vista. O vencedor O segredo... é também um grande filme, igualmente denso e bem realizado, e para nós latinos mais próximo, por explorar uma realidade que nos é familiar: a injustiça, o futebol, as esperanças perdidas na ditadura, o humor apesar de tudo.
O excelente cinema argentino representou muito bem nosso continente, e como no cinema não há as rivalidades do futebol, só nos resta celebrar que uma obra desse calibre receba atenção do mundo, quando ele era considerado o azarão do páreo. Não que A Fita Branca tenha menos méritos, longe disso. Mas o Segredo (é segredo/não conte a ninguém...) tem la manera y el sentimiento latinos. Claro, agora que os holofotes vão estar sobre ele, sempre vão haver os arautos do elitismo bradando que não é tão bom assim pelo simples fato de ter sido premiado. Estamos vacinados quanto a isso.
O cinema argentino é consistente, criativo e corajoso, e muitas vezes deixa o nosso esforçado cinema nacional a ver navios. Gol dos argentinos, ou melhor: do Racing de Avellaneda.


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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Carnaval: questões sobre diversão e identidade

Lidar com o carnaval é atualizar nossa relação com a diversão e com a identidade. Quanto precisamos de diversão, que preço estamos dispostos a pagar, até que ponto gostar da música que toca é importante, o quanto estamos carentes?
Na nossa querida Belém, uma desvantagem inicial: somos obrigados constantemente a ouvir música que não queremos, seja no ônibus, seja em casa ou na rua, ou seja: a possibilidade de que a diversão alheia nos irrite é muito grande. Reações passionais a ritmos como o axé, o brega e o sertanejo são mais frequentes e justificáveis.
Em nossa organizada e quente Porto Alegre, ouvir música que não se quer é algo bem mais raro. Ônibus silenciosos, vizinhos que respeitam o toque de silêncio das dez da noite, pouquíssima poluição sonora em geral. Muito fácil ser tolerante com a diversão alheia, ela não nos atinge como um soco. Refugiar-nos em livros, discos, filmes e na companhia das pessoas queridas é sempre uma opção digna, especialmente para quem tem ar condicionado em casa (não meu caso, infelizmente).
Outro aspecto do carnaval que incomoda muita gente (mas dois elefantes incomodam muito mais) é a suposta identidade nacional forjada inapelavelmente no samba, no carnaval e no Rio de Janeiro. E nós que ouvimos rock e milonga, como ficamos? E quem gosta de jazz e baião? E o pessoal do heavy metal e do carimbó? Identidade muito limitadora e midiática essa da mulata e do passista no sambódromo. Nós que temos componentes culturais que passam longe desses estereótipos somos menos brasileiros por isso? Desconfio que a quantidade de gente pelo país afora que não se sente à vontade sendo reduzida a uma cacofônica caricatura carioca é bem grande.
Compatriotas que preferem outros ritmos e outras diversões, este país também é nosso.


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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Mais diferentes? Menos diferentes? Quem se importa? (Revisado)




Muitos gaúchos gostam de dizer que aqui é um país à parte, diferente do resto do Brasil. Dão várias justificativas para isso, das mais caricatas (porque aqui se trabalha) às mais sutis (o processo histórico de fronteira e a proximidade com os países vizinhos). Quanto às caricatas, não vale a pena comentar. Fiquemos com as sutis. Aqui há uma formação sui generis sim, com componentes culturais e históricos peculiares. As guerras contra os castelhanos, as revoluções internas, a influência intelectual e política do positivismo, a idealização de um gaúcho glorioso criada pelo movimento tradicionalista, entre outros elementos, deram uma característica marcante ao sul. Um lugar de cultura própria vibrante, rica e onde sempre há algo a descobrir.
Se eu fosse gaúcho, encerraria o texto aqui. Mas eu vou além. Vou falar da visão que eles têm do Brasil como um bloco indistinto do qual eles seriam diferentes. Visão restrita e problemática para os tempos atuais. Na verdade muitos estados podem gabar-se disso: de ter um processo de formação diferenciado e ser um caso à parte, não pertencendo totalmente ao Brasil. Pernambuco é um deles. Tem uma cultura e uma história próprias, tão interessantes quanto a gaúcha. Minas também. O Pará e o Amazonas também. Muita gente reivindica mais autonomia política e cultural em relação ao eixo Rio-São Paulo. Os amazônidas, o grande povo invisível, podemos dizer que nossa cultura se aproxima mais de países hispânicos vizinhos, tanto da América do Sul como do Caribe. Somos então, diferentes do “resto do Brasil”. A questão é que fora do Rio, São Paulo e provavelmente Brasília, todos podem encontrar material para ser mais diferentes que os outros, porque todos estamos em certa medida na periferia. 
E estas periferias estão se conectando, ou estão ainda dependentes da mediação de Rio e São Paulo?



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domingo, 24 de janeiro de 2010

Nei bate Gessinger com folga



            Dois grandes nomes do rock gaúcho fizeram pocket shows na mesma semana na livraria Fnac, aqui perto de casa: Nei Van Soria e Humberto Gessinger. Um pocket show é um mini show: intimista, com poucos instrumentos, só uma palhinha do trabalho do artista. Nei Van Soria, como todos sabem, foi membro fundador do TNT e dos Cascavelletes, bandas seminais do rock sulista, e tem uma carreira solo que fica mais consistente a cada disco. E o seu Gessinger veio com o projeto atual, chamado Pouca Vogal.
            No show de Nei há lugares sentados disponíveis, e um público variado: adultos, adolescentes, crianças. No show do Pouca Vogal, uma hora antes já há uma fila imensa, e é impossível conseguir lugares sentados. Só olhando de longe, em pé mesmo.
Nei Van Soria chega de modo bem simples, de jeans, tênis e camiseta, e manda ver uma seqüência de belas e inspiradas canções, acompanhado de um gaiteiro (povo do norte: sanfoneiro) muito competente. O público é pequeno, mas é atento e canta junto, incluindo as crianças. O cara olha nos olhos do público, toca o que tem que tocar, sem firulas. Uma postura ao mesmo tempo acessível e profissional.
            Humberto Gessinger é bem diferente. Ele dá a impressão de que está em um estádio lotado, e o público (grande maioria adolescente) parece querer isso mesmo. Muita pose, tudo com aquele gosto artificial do mundo dos pop stars. Nada a ver com o clima de show em livraria. Antes da metade eu já estava olhando o baú das promoções da Fnac, que tem coisas novas e baratas.
            Gostei bastante dos primeiros discos dos Engenheiros, e algumas vezes vi shows deles com muito interesse. Mas “o pop não poupa ninguém”, e a persona que ele mantém agora é chatinha e meio vazia. Ou ele sempre foi assim, e eu é que era adolescente e não percebia?
Em 2010, amigos, ouçam Nei Van Soria, especialmente Jardim Inglês e Cidade Grande, que são dois grandes discos, e assistam o DVD ao vivo que ele está lançando agora, que está muito bom. 
Aqui o site e o blog dele:



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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Mais solitários?



De vez em quando vem alguém com essa conversa de que hoje em dia, mesmo com tantas tecnologias novas, as pessoas são mais solitárias. É como se houvesse existido uma época de ouro das comunicações humanas, na qual as pessoas se entendiam, eram solidárias e todos davam as mãos e cantavam juntos. Posição do alanismo: isso é papo-furado.
Nós, humanos, sempre tivemos dificuldade para nos comunicar, e não é a tecnologia que vai levar a culpa por isso. Temos séculos de guerras, colonialismo, imperialismo, exploração, injustiça e angústias existenciais. Agora, nas últimas décadas então, de repente, não nos comunicamos mais? Vão enganar outro otário, não eu.
É preciso desconfiar das pessoas que têm fobia de tecnologia. Elas podem ser apenas velhinhos simpáticos e resmungões, mas também podem ser uns malas que entoam a monótona cantilena do “No meu tempo é que era bom”.
Estes são os meus tempos, e enquanto eu estiver vivo sempre será o meu tempo.




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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O verdadeiro centro


Já que não pertenço mais ao Norte, e tampouco fui totalmente assimilado pelo Sul, meu lugar seria a verdadeira síntese do país: Minas Gerais. O Rio de Janeiro representa apenas o Rio de Janeiro. Só em Minas há de facto um equilíbrio dos elementos que compõem nossa nacionalidade: a noção de planejamento e organização do Sul, somados à gentileza e simpatia do Norte, além de um toque particularmente mineiro que muito me agrada: a discrição.  Escrevi uns poemas tentando expressar isso, que ficaram meio confusos, talvez, mas têm lá seu interesse. Aqui vão dois deles: 



O meio


Aqui no meio, nem covarde nem medalha
Seguro os cabos de aço que sustentam os dias
As fatias das asas de borboleta
Veleidades de estrangeiro em solo indefinido


Aqui no meio, pedras e moedas raras
Bem só, acompanhado e saltando
Sem sentir o gosto das romãs de Armênias remotas


Aqui no meio, em meu lugar
Sou muito Minas Gerais, sou triangulinho vermelho
Liberdade tardia sobre fundo branco


Aqui caminho e volto para tomar banho




O centro


Sigo mais eu mesmo na solidão de ser
Não um monolito coerente e sólido
Mas camadas de terra revolta, bolo formigueiro
Retalhos de várias pessoas e vários fazeres
Sigo mais eu mesmo, mais Belo Horizonte
(Se meus olhos claros fossem faróis
iluminariam o caminho até a tua casa)
Sigo ao lado desse outro rio, grande
De muitas cores e velas codificadas
Eu as decifro ou as invento, dá igual
Crio os números de uma loteria polifônica
E varro o chão duas, três, nove vezes
Disperso e focado
Concisão e torrentes
Sigo eu mesmo na falta de muitos outros
Dos nomes que caíram de meu bolso
E dos que ainda chegarão em envelope selado
Sigo o caminho espiral do centro do caracol
Onde minhas pernas são felizes
E onde conto fábulas surrealistas antes de dormir




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sábado, 16 de janeiro de 2010

Diálogos



             - Esses tailandeses são todos uns preguiçosos mesmo.
            - Meu avô é tailandês, cara.
            - Bom, nem todos, né, mas a maioria só quer saber de dançar, de ir pra praia...
            - Meu pai é tailandês também.
            - Como eu te digo, pode até ter um ou outro diferente, mas a maioria só quer vida mansa. Nós aqui do Camboja aprendemos o valor do trabalho, da disciplina. Lá, esses tailandeses, com exceção do teu pai e do teu avô, são todos assim mesmo.
            - Minha mãe também.
            - Quê que tem tua mãe?
            - Ela é tailandesa.
            - Bom, ela é uma senhora muito legal, a dona Li Tuang. Outro dia mesmo ela me chamou pra almoçar com vocês, eu tava sem grana. Vocês são todos muito gente fina, cara. Gosto de vocês. Já tão aqui há muito tempo, né? Já se acostumaram com a cultura daqui, já trabalham bastante. Tu mesmo é um cara batalhador, né? Te vejo dia e noite estudando, trabalhando, fazendo projetos. Admiro tua força de vontade, meu.
            - Estamos aqui há três meses. Eu também sou tailandês.
            - Pois é, cara, pra tu ver que a pessoa não pode ser perfeita. Algum defeito tu tinha que ter!


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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As forças e a fragilidade de Avatar


Finalmente assisto um filmo em 3D, o mega sucesso Avatar. A experiência é fascinante a princípio, principalmente pela sensação de profundidade de cada cena. Melhor ainda para quem entende inglês, que nem precisa se distrair com legendas.
Passado o fascínio inicial, tenho que encarar o território estranho do cinema comercial de aventura. Um mundo diferente, com uma lógica própria, com paradigmas aos quais não estou habituado. Um ponto positivo: o filme é abertamente anti-imperialista, bem ao gosto destes tempos pós-coloniais. Didaticamente, com muita paciência, tenta ensinar os americanos que outros povos e culturas não servem só para ser destruídos e conquistados, que há algo que podem aprender conosco. Digo “conosco” porque acho que nos identificamos a princípio com os azulões, ou estarei enganado?
O filme segue sua longa trajetória. Há um discurso ecológico bonito e interessante, que não chega a cair no piegas, e isto é um mérito para esse tipo de filme. A noção de conexão com a natureza que os azulões têm é bem apropriada, assim como a dificuldade dos americanos em entendê-la (que saudade de meus cabelos longos...)
O ponto fraco é evidente: ele não surpreende. Sabemos exatamente o que vai acontecer a todo momento. As únicas surpresas ficam para a parte visual, realmente impressionante. Mas a história se arrasta de maneira esquemática e previsível, mesmo para alguém sem muita experiência no estilo.
Claro, eu posso não ter entendido nada, e não sacado que o que importa mesmo são os efeitos especiais, e os níveis de leitura da história não interessam muito. Devo me dar por satisfeito de ele criticar o imperialismo tão abertamente. Por outro lado, o público de hoje em dia não é ingênuo. Facilmente se descobre o que é avatar, de onde vem, que mitologias estão envolvidas, que tipo de pessoas vão se sentir incomodadas com o filme. Os estratos simbólico, político, narrativo e ideológico nunca estiveram tão acessíveis ao público médio, é questão de dois cliques e quatro neurônios.
O que importa é que se sai do cinema com uma sensação de que valeu a pena, que ele atingiu não apenas os sentidos, e que há sim bastante conteúdo a ser analisado, ao contrário do que eu fico temendo sempre que me aventuro pelo cinema comercial: que seja só correria e explosões sem significado relevante, sem riqueza de composição.
Fechando de maneira coerente com o Alanismo: não importa se seis pessoas ou seis bilhões assistiram o filme, o que importa é o que ele teve a dizer para mim. E sim, ele falou e mostrou bastante.


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