terça-feira, 31 de março de 2009

Na trincheira, sempre


Com a maturidade física e psicológica que a duras penas consegui alcançar, muitas coisas mudaram: Idéias radicais tornaram-se equilibradas, o desejo de ser notado foi substituído pelo de passar despercebido, o anarquismo original se tingiu de pragmatismo social-democrata. Por questão de adaptação e estratégia, mais do que por prazer, cuido de minha aparência. Por questão de bom senso, cuido de minha saúde. Tenho prazer em manter meu apartamento limpo e organizado, ao invés da bagunça histórica que me acompanhava.
No entanto, certas coisas não mudam. Os inimigos continuam os mesmos: os conservadores, os reacionários. Os racistas, que são tantos e andam tão à vontade nesta província sulista. Eles falam abertamente o que pensam, contam piadas, arrotam e peidam seu nojo pela pele escura aos quatro ventos, sem um pingo de vergonha. Se tu que estás lendo isto me conheces superficialmente, saibas logo desde já: sou amigo de negros. Toco suas mãos, os abraço. Eles bebem água de meu copo, cerveja de minha tulipa. Se tens nojo, nem te dês ao trabalho de me conhecer melhor. Sai deste site e procura tua turma.
Os paraenses podem achar estranho que eu precise dizer isto, afinal somos um povo de “morenos”, e a cor da pele para nós é só um detalhe. Mas aqui no sul é preciso marcar posição. É preciso que eu diga que não sou branco, que tenho orgulho de ser brasileiro e de meu sangue mestiço. Que sem negros, sem japoneses, sem árabes, sem judeus, sem gays, sem índios, sem diversidade enfim, este país seria um tédio.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Hard-working March

égua, volta ao trabalho é isso: de tão cansado, já não se escreve. As idéias vão circulando na cabeça, coisas de oriente médio, Persépolis e Palestina, e em breve elas se materializarão por aqui...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Magazine Luiza, pior que empresa de telefonia


Se você quer ser mal atendido, e quer ficar esperando uma eternidade para receber um produto já pago (à vista!) sem qualquer explicação, vá ao Magazine Luiza. Se quer se irritar, ser tratado com indiferença, fazer um pouco de fúria circular pelo seu corpo cansado, vá ao Magazine Luiza. Aqueles abutres estão lá esperando para roer teu couro e rir da tua cara de otário.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

La maison en petits cubes


O vencedor do Oscar de melhor animação é uma das grandes descobertas dos últimos tempos, uma pequena pérola cinematográfica. Sem palavras, o diretor japonês Kunio Kato consegue dizer muito mais em doze minutos do que o tal Benjamin Button em mais de duas horas. O personagem mergulha nas camadas de sua memória e nos leva junto, em um primor de delicadeza e profundidade. Assista aqui.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mais slumdog


Agora que o Slumdog foi muito premiado, é um bom momento para colocar em prática os princípios do Alanismo. Lembremos: não sejamos elitistas, então nada de dizer que agora que ganhou prêmios e está muito famoso já não serve mais. Nem também ir com expectativas grandes demais e sair falando o óbvio “não é tão bom assim”. Também não sejamos deslumbrados a ponto de dizer que ele é ótimo e os prêmios só confirmam isso. Um prêmio é algo arbitrário, conjuntural, envolve diversos fatores políticos e econômicos, e acaba pouco dizendo sobre a obra em si.
Sei que é difícil descolar a obra de seu contexto sócio-histórico, mas de qualquer forma assistam o filme como se fosse apenas mais um filme. Sem elitismo, sem deslumbramento, de mente e corpo abertos à experiência única do cinema.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Viva a Suécia


Acompanho os acontecimentos na Venezuela e penso sobre nossa triste sina latino-americana de ter que personalizar tudo. Aqui um país não pode ter um sistema eficiente, onde as pessoas sejam peças que fazem a coisa andar. Nós temos que ter um grande pai, uma figura carismática que personalize as ações e sem a qual tudo seria o caos. Triste, isso, muito triste. Nos deixa em uma situação frágil como democracia e infantilizados como cidadãos. Por isso me posiciono contra Hugo Chávez e contra qualquer político “carismático” e populista. Políticos deveriam ser acima de tudo extremamente honestos, muito eficientes e equilibrados. Carisma é para artistas. Políticos são funcionários públicos de alta responsabilidade. O sistema é que teria de funcionar de maneira a garantir o bem estar geral e evitar desigualdades profundas, independente de que partido estivesse no poder.
Sim, caros amigos, me tornei social-democrata na política (estilo escandinavo, claro) e continuo libertário nos costumes.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Milionário da favela


O filme Slumdog Millionaire, que vai estreiar no Brasil em março com o infeliz título “Quem quer ser um milionário?”, justifica o barulho que vem fazendo. A narrativa do inglês Danny Boyle (o mesmo diretor de Trainspotting) é segura, moderna e tensa. Uma Índia estranha, miserável, que tem muito a ver com o Brasil em termos de violência e marginalidade, e da canalhice dos apresentadores de televisão. O questionamento central sobre o conhecimento, sobre como adquirimos nossa visão de mundo e para quê ela serve, é o que conduz e hipnotiza até o fim.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Silêncio


Não há respostas, apenas a interrupção abrupta e absurda. Perguntas. Lamentos e perplexidade. Amigo, é estranho, cada vez que lembro de teu rosto te vejo explicando alguma coisa, com ar didático e amigável, ou sorrindo aquele sorriso amplo que vai fazer falta neste mundo onde ficamos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Adeus, Belém do Pará


Belém, nossa querida Belém. Hora de dizer adeus. Hora de acertar algumas contas. Primeira conclusão: a relação orgânica que meu corpo tinha com a cidade já não existe, evaporou-se em algum inverno sulista. Meu organismo já não pertence ao meio da urbanidade amazônica, já é um corpo estranho. Assustador ou libertador, é o que está acontecendo.
Os amigos, as pessoas queridas sim, continuam sempre aqui dentro, desnecessário citar exemplos. Mas a cidade, essa cidade, já não é minha. Isso o que ficou desta vez. A cidade descolou do meu corpo. As pessoas não. A cidade, bela sempre, insuportável sempre, se afasta e segue sua vida, como uma antiga amante de quem guardamos remotas lembranças.
São muitos anos. São muitas vidas. Muita distância. Belém é um ônibus que passa direto quando fazemos sinal, que nos ignora quando mais precisamos. Assim: Levantar o braço, pois o ônibus se aproxima. O motorista nos vê, e decide não parar. Apenas porque ele está no comando, por um simples capricho. Isso é Belém. Isso é Pará. Um ônibus que recusou nos levar. Esse é o limite, a linha de corte. Eu não quero fazer sinal para esse ônibus. Isso é Belém. Isso é Pará. Um ônibus que nos esnoba e nos afronta em nosso momento mais frágil, quando o calor nos derrete a alma ou quando a noite nos ameaça em lugares estranhos.
Desta vez algo se rompeu. Esta vez não foi como as outras.
Mas as pessoas, as relações que tenho com as pessoas, estas continuam mais vivas e sólidas que nunca.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Cultura pop


I
A cultura pop nos envolve, nos cerca, nos contém. Mas, como qualquer produto humano, ela não é monolítica nem tem apenas um significado. Não é totalmente maravilhosa nem totalmente alienante. Assim como o futebol, a cultura pop é ao mesmo tempo sublime e banal.
Tomemos os anos 2000. O rock, um dos grandes ícones da cultura pop, esvaziou, emburreceu. Perdeu conteúdo, ganhou pose artificial e deixou o lado brega tomar conta. O fenômeno emo ajudou a banalizar e tornar ridícula uma das manifestações mais viscerais do século passado. Grandes bandas ainda há, claro, mas a penetração delas no imaginário popular ficou limitada. Um ponto a menos para o pop.
A mídia pop deixou de ser totalmente comandado pelos EUA. O Japão chegou arrebentando com seus desenhos de olhos grandes e sua cultura anime e Cia. Isso é interessante, ajuda a criar outros eixos de produção do imaginário pop. Não conheço muito esse mundo, mas percebo a importância histórica. Tomara que outro países e continentes apareçam também. Um a um.
A internet ajudou a deixar o mundo definitivamente mais conectado. Ninguém precisa mais comprar CD’s nem DVD’s, nem depender da boa vontade das distribuidoras nacionais. Isso vale dois pontos.
Uma cosia chata do pop atual: marcha de zumbis, filmes trash, essas coisas todas infantilóides e monótonas. Menos um ponto. Por enquanto: 3 a 2 para o pop.

II
A música brasileira que circula na grande mídia continua a idiotice de sempre, com a eterna desculpa de que “é só pra dançar, não é pra ouvir”. Dançando, dançando, a gente vai afundando com funk carioca, sertanojo e porcarias do gênero. Menos um ponto. Em cidades como Belém, onde as pessoas não têm a opção de não ouvir, isto se torna particularmente dramático.
Em Porto Alegre é fácil, raramente se é obrigado a ouvir o que não se quer. Há a possibilidade do silêncio. Em Belém, só resta o sofrimento deste pobre, heróico e sofrido povo cabano. Talvez isto faça toda a diferença: a possibilidade de escolher quando e como vamos estar expostos à cultura pop, de lidar com esses elementos todos do nosso jeito, na hora em que quisermos. Não há porque sentir ódio por uma coisa que não somos obrigados a ouvir diariamente, em horários absurdos.

III
Se a cultura erudita sofre com a ditadura da sisudez, o perigo que sempre ronda o pop é a banalidade irreversível. A ditadura da diversão, do efêmero, do engraçadinho. Eu, que para os sisudos sou banal, e para os banais sou sisudo, me resguardo o direito de aproveitar o melhor de todos os mundos. Riso e diversão sim, mas profundidade também que nóis não semos retardados.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Em terras paraenses


Aqui em terras paraenses eu paro e penso, sempre que o clima me permite. Reviso as três grandes fragilidades da cidade: o clima quente e úmido demais, o sistema de transporte deficiente, e o barulho excessivo. Eles continuam aqui, fazem parte do núcleo duro de nossos defeitos.
Quanto ao clima pouco há a fazer, além de lamentar e sofrer. O transporte poderia ser melhorado caso tivéssemos mais entranhadas em nossas ações as noções de ordem, de planejamento estratégico, de respeito ao espaço público, ao invés de nosso espontaneismo e imediatismo habituais, de nossa cultura do improviso, que ao mesmo tempo nos salva e nos desgraça. Estou resolvido a testar os limites do terceiro fator, o barulho. Assim que algum vizinho se exceder na música após as 10 da noite vou chamar a polícia para ver o que dá. Nunca, em lugar nenhum, o direito à diversão de alguns deveria ser mais importante que o direito ao sono de um trabalhador, de um estudante, seja de quem for.
O que há de bom sobre a pele quente da cidade? Antigas e sólidas amizades, carinho, afeto. Antigos e maravilhosos sabores: muruci, pupunha, guaraná, tucupi... Instalado em meu lugar nenhum, eu passeio e observo. Nortista demais para pertencer ao sul, mas impregnado de hábitos sulistas que me fazem estranhar muitas coisas daqui.
Belém metrópole, organismo vivo, quente e irrequieto. Lusitana e indígena sim, mas algo muito além do português e do índio.
Belém viva, pulsando cheia de esplendor e de decadência, fugidia, difícil de definir e decifrar. Belas ruas com os eternos túneis de mangueira, decrépitos subúrbios cheios de lixo, barulho e violência. Histórias soterradas, memória dilapidada, futebol em ruínas.
Ficar amigo íntimo das pessoas no primeiro contato, mas não por futilidade nem por hipocrisia como os sulistas acham: por afinidades que se sabem passageiras, mas não dispensam a cordialidade e a possibilidade do riso. Consciência de que as verdadeiras amizades levam tempo, precisam ter escrito uma história de presenças e quiçá de ausências, mas mantendo o contato direto, tocando na pele, cutucando com o dedo, seja para agradar ou para irritar.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Angola


Cada semestre para mim costuma ter um tema, geralmente um país ou um escritor específico. Este que passou foi Angola. Já conhecia um pouco da música, e tinha lido um livro do Pepetela, o Mayombe. O que iniciou a redescoberta desse fascinante país foi a leitura de Geração da utopia, a obra prima de Pepetela, que minha namorada estava lendo para o mestrado e eu peguei carona.
O livro é um relato de trinta anos da sofrida história do país através dos pontos de vista de distintos e emblemáticos personagens, daqueles que dão a impressão de serem nossos conhecidos e amigos há muito tempo. Sara, Aníbal, Malongo, gente palpável, gente de um país lusófono muito próximo de nós. Um dos melhores e mais bem construídos livros que li nesta década, de fato inesquecível.
Em seguida veio a música, com destaque para a voz rouca de Bonga e a criatividade e força das composições de Paulo Flores. Conheci o ritmo chamado Semba, que soa como algo entre a música caribenha, especialmente a cúmbia, e o nosso carimbó, mas com uma batida ligeiramente diferente. Os ritmos Kuduro e Kizomba não me agradaram muito. O primeiro é o funk carioca deles: engraçadinho, mas ordinário. O segundo é uma versão bem pop do zouk antilhano, também não impressiona muito.
O português falado em Angola soa melódico, bonito, com influência do português de Portugal, mas sem a dureza e a rispidez da sonoridade ibérica.
Cinema, infelizmente nada. Comida, acho que só indo lá para provar. Aqui dá pra ver um programa interessante da Regina Casé em Luanda.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Silêncio por enquanto

Outubro e novembro, meses de ajeitar o apartamento novo e de trabalhar muito para pagar as prestações. Por isso o silêncio. Nem o show do REM foi devidamente comentado aqui, uma vergonha. Voltaremos em breve, quando o tempo for mais generoso.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Para não esquecer

Se eu hesitar em uma esquina de Buenos Aires

Tentando segurar as lembranças nas mãos

Pacotes mal amarrados

Trens em velocidade zero onde já não entro

Se o vento frio do rio de leite me segurar a manga

A manga, que engraçado a mesma e diferente manga

Será possível, será dormindo

Será contigo em uma foto com os pezinhos para cima

Se eu tomar um choque em plena Avenida de Mayo

Em frente ao London, discutindo prêmios

Será apenas a tua mão que me atingiu, que me envolveu

Que me devolveu ao centro e me trouxe a outro bairro

E se for enfim um tango em Porto Alegre

Será Porto Alegre, então, será preciso

Será desperto

Será tranqüilo

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Resposta ao livro das respostas

Caro amigo, obrigado pelo comentário. Obviamente tu és uma das grandes exceções: tu tens curiosidade e não desprezo pelo diferente, como a maioria dos meus melhores amigos. Entendo teu comentário sobre o racismo, mas não devemos esquecer uma coisa bem clara e brutal: os negros estão em grande desvantagem inicial, sim. Por mais que tentemos relativizar dizendo que todos somos preconceituosos e tal, isso não muda o fato concreto. Pior: corremos o risco de tentar escondê-lo e tornar o preconceito justificado por ser algo “natural” e comum a todos. Não vamos cair nesta armadilha. Não queremos ser nem condescendentes nem cínicos.

Quanto á amostragem de minha análise (papinho científico, hein?) fica assim: classes média e alta de Porto Alegre, além de universitários vindos do interior, que é com o que mais convivo. Devo confessar uma coisa: as pessoas de classe baixa com quem tive contato tendem a ser bem mais simpáticas e menos arrogantes, como em qualquer lugar do país. Como no Guamá. Queria conviver mais com este meio, que afinal é de onde venho.

Sabe do que sinto falta? De conhecer a mítica Satolep melhor. De conhecer a fronteira, o Pampa profundo. De ampliar meu olhar, como tu sugeriste. Que tal juntarmos uma galera e fazermos essa descoberta juntos? Tipo “Eu indo ao Pampa, o Pampa indo em mim”. Ampliar o olhar é comigo mesmo, é meu esporte preferido.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sobre civilidade e truculência em Belém


Já escrevi sobre Porto Alegre, talvez seja a hora de colocar Belém em foco. Nossos problemas, nossos acertos, com o olhar enviesado que quem já não tem a presença física da cidade, mas a leva sempre no peito.

A princípio me parece que nos falta um certo cuidado com a cidade, uma vontade maior de deixá-la bonita e arrumada, de achar um horror um papel de chiclete jogado ao chão. Estamos melhorando, eu acompanho pela internet. Temos vários lugares bonitos, mas ainda temos muitas ruas mal cuidadas, um crime em uma cidade potencialmente tão bela.

Somos dispersos, e o calor não ajuda nem um pouco. Vivendo aqui no sul as quatro estações percebo como o calor faz mal para o pensamento e para a concentração. A atividade intelectual fica mais difícil, pesada, requer uma disciplina ferrenha. O frio acelera o pensamento, disciplina o olhar, concentra a energia. Ter bom senso em um clima quente como o de Belém é ser um herói, um guerreiro.

Então somos dispersos, mas qualquer um seria nestas condições. Somos atrasados, temos o espontaneísmo do brasileiro médio, ficamos melhores amigos ao primeiro contato. (Credo, e eu estranhando isso tudo!). Não temos a necessária aversão ao populismo e ao coronelismo. Permitimos que no interior do estado haja trabalho escravo, impunidade, todo tipo de horror e injustiça. Até para a esquerda ganhar eleição tem que pedir benção ao sinhozinho grande.

Deixamos um de nossos maiores intelectuais ser perseguido na justiça e agredido fisicamente apenas por ter uma opinião sólida e divergente sobre as coisas. Não fazemos muita questão de democracia nem de opiniões divergentes. Somos truculentos, rebarbados, grossos. Em algum momento do século XX perdemos nosso refinamento afrancesado, nosso charme de grande metrópole da Amazônia, nossas luzes na floresta. Perdemos muito de nossa delicadeza, criamos o mito da “terra do já teve”. A integridade física, intelectual e legal de Lúcio Flávio Pinto dará a medida de quanto ainda somos civilizados ou de quanto cedemos à brutalidade.

E paradoxalmente há tantas coisas belas, belas, tantas Eneidas e mangueiras, tanta musicalidade e intensidade, tanta poesia. A chuva - em Belém, e só lá, eu gosto da chuva. Banho de cheiro, corda do Círio, tacacá. A pujança metafísica do bolo de macaxeira, o arraial do Pavulagem, a visceralidade dos sucos de taberebá, muruci e cupuaçu. Tanta coisa, que não cabe em apenas um post.

Meu futebol


Eu, como a maioria dos brasileiros, adoro cerveja, mulher e futebol. Mas tudo do meu jeito. Gosto de cerveja escura e encorpada, não da água fraquinha que as pessoas preferem. Não suporto mulheres “gostosas e burras” estilo programa de humor antiquado, e em futebol não consigo me empolgar com clássicos locais. Remo ou Paysandú, tenho mesmo que escolher e endeusar um, e odiar mortalmente o outro? Pergunta retórica e idiota para a maioria, eu sei, mas é assim que eu sou. Eu sou os dois, um híbrido esquizofrênico talvez, mas muito eu. Que me importa o Gre-nal, o bom mesmo é ver o Grêmio ganhar do Corinthians, do River. Quanto maior a dimensão geográfica da partida, mais me interessa. Uma cidade apenas é pouco para mim.

Isto posto, é com tristeza e não com ironia que vejo o Remo ameaçado de eliminação na série C. Nosso pobre, corrupto e bagunçado futebol paraense, que já viu dias muito melhores, se arrasta melancolicamente tentando se reerguer. Conseguiremos?

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Bússola ideológica


Ano de eleições, lá vamos nós atualizar nossas convicções ou a falta delas. Interessante gráfico encontrei neste site aqui. A velha polarização direita x esquerda (eixo econômico) vem atravessada por outra que para mim é mais relevante: autoritário x libertário (eixo social).

Meu resultado: centro-esquerda bastante libertário, o mesmo do Dalai Lama e do Ghandi. Gostei. Façam o teste e confiram.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Parte 3


Criticar de maneira generosa e bem intencionada uma pessoa ou um lugar que se gosta é um ato de respeito. Dizer “olha, não tratem tão mal os negros e os outros brasileiros” é querer que este lugar fique mais humano, mais bonito. E um modo de dizer sim, estou aqui, sou feliz aqui, mas continuo sendo essa maquininha de pensar, esse olhar inquieto, esse nômade incansável. Não é porque eu te acho arrogante que eu não vou gostar de ti.

Diferentes Arrogâncias II


Engraçado os gaúchos reclamarem de uma coisa que é tão forte, inclusive aqui: a pele escura. O Rio Grande é um estado lindamente mestiço, cheio de gente de todas as cores pelas ruas, com essa diversidade que os tornou um povo tão bonito física e espiritualmente. Só que muitos preferem não ver isso, preferem fingir que os outros são os mestiços e aqui estão os “puros”. Preferem ignorar toda a beleza e a alegria que a presença dos negros e dos índios traz. Como diz Vítor Ramil: “Que triste foi a escravidão, mas que triste um povo que não tem negros”.

Quanto à tão propagada preguiça dos outros, devo dizer que aqui conheci e convivo com tanta gente preguiçosa quanto convivi em qualquer outro lugar do país. Gente legal, gente idiota, gente passional, enfim, todos os tipos humanos que se encontra em qualquer capital brasileira. Nem mais, nem menos, apenas a necessidade deles de se afirmar como trabalhadores, que é como eles concebem que seja o ocidental. Coisa da colonização provinciana que receberam dos alemães e italianos, assunto já tratado aqui.

Por último, a questão da aparência. São mais bonitos e mais vaidosos que os outros brasileiros, isso é inegável. Muito por causa da mestiçagem e da raça negra, que eles tanto esculhambam. O fato é que aprendi muito sobre cuidar da aparência por aqui, e tento me adaptar. A aparência é um valor forte, e ir contra isso em terra alheia não seria sensato. Diferente do racismo e do “trabalho”, que questiono veementemente, em relação ao quesito aparência eu humildemente sigo as convenções, observo e aprendo. É que o racismo e a calúnia insensata são degradantes para o ser humano, e cuidar da própria aparência (desde que isso não seja usado para diminuir os outros) não.

Diferentes Arrogâncias


I

Gosto muito do Rio Grande do Sul e da Argentina. Me identifico com muitos aspectos da cultura dos Pampas e admiro sobretudo que aqui haja artistas do calibre de um Vítor Ramil ou de um Spinetta. Por isso me permito fazer algumas críticas, do ponto de vista de quem vem de fora, mas já conhece a região o suficiente para essas coisas.

São duas terras arrogantes, é evidente, mas de arrogâncias diferentes. A arrogância Argentina tem em comum com a gaúcha a questão racial, e o fato de se acharem mais próximos do mundo ocidental que os “brasileiros”. Aí começam as diferenças. “Ocidental” para um argentino tem a ver com cultura e civilização, com pensamento, com um projeto de sociedade calcado em valores humanistas. Para um gaúcho os valores ocidentais passam pela dicotomia trabalho x preguiça, na qual eles imaginam representar o primeiro elemento, deixando aos demais brasileiros o desonroso segundo. Além disso, enfatizam o cuidado com a aparência, em detrimento do desleixo e do espontaneismo predominantes nos outros estados.

Para um argentino médio o brasileiro é bem-humorado (no sentido positivo da coisa), tem a pele escura, é um tanto inculto e – surpresa – próspero e trabalhador. A dicotomia trabalho x preguiça não faz parte do imaginário deles, que adoram conversas filosóficas e literárias nos cafés de Buenos Aires, deixando o tempo ter seu próprio tempo. Uma arrogância densa, introspectiva, intensa e discreta, passional e melancólica como a música deles.

Já para o gaúcho médio o brasileiro tem a pele escura, é feio, preguiçoso e desleixado. Já se vê que não andamos em alta por aqui. Mas há um elemento que equilibra o tipo de arrogância gaúcha: o bom humor. São muito bem humorados, como qualquer brasileiro, o que confere à arrogância deles um caráter não tão ríspido. Também são, paradoxalmente, muito receptivos e hospitaleiros com os forasteiros. Algo como “Não é porque eu te acho inferior que eu vou te tratar mal, tchê”. Uma arrogância extrovertida e simpática, enfim, e para quem é do mundo do rock como eu, uma vantagem adicional: aqui o rock é mais presente, mais visceral, mais entranhado no modo de ser das pessoas do que no resto do país. Isso sim uma vantagem, não essa balela provinciana de “gente trabalhadora, gente preguiçosa”.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Alanos em guerra


Alanos do mundo inteiro acompanhamos apreensivos os movimentos de Guerra em nosso território. A Ossétia do sul, país alano anexado pela Geórgia e pretendido pela Rússia, que já controla a Ossétia do norte (a Alania por excelência), chama a atenção do mundo nesta época de utopia olímpica. O ideal seria uma Alania independente tanto da Rússia como da Geórgia, mas fortes relações comerciais aproximam nosso país do gigante russo. Será a diplomacia capaz de atuar e dar uma resposta pacífica a este impasse?

domingo, 3 de agosto de 2008

Gotas de ideologia

Durante muito tempo achamos que o capitalismo era o inimigo. Bobagem, os inimigos sempre foram os mesmos: os reacionários. O capitalismo não é bom nem mau, é como os remédios: depende de como se usa. Pode criar uma Suécia ou uma Bolívia. Os reacionários, estes sim, estão por aí arrotando sua arrogância e sua intolerância, fedendo a mau humor e tentando congelar o mundo.

O problema não é ganhar dinheiro (ganhar dinheiro honestamente é muito bom). O problema é perder a lucidez, a gentileza, a curiosidade, o tesão pela vida, o respeito pelos outros.

Discordando um pouquinho

Corro o risco de escrever besteira, pois vou tratar de um universo que não me é familiar. Em caso afirmativo, vale pelo menos pela curiosidade. Aviso de antemão: filmes de ação me fazem dormir. Perseguição de carros e tiroteios para mim são as coisas mais tediosas que se pode pensar em colocar no cinema. O que me seduz é a trama, a atuação, a trilha, e as leituras que se pode fazer de um filme. O movimento das idéias e das emoções mais que a velocidade dos corpos.

Pois vamos ao Batman. Pelas razões expostas acima, ano passado assisti pela primeira vez na vida um filme dele: Batman begins. Gostei bastante, me lembrou quando eu lia os quadrinhos do Frank Miller. Empolgado, fui então ver o novo Batman, e tive que me esforçar bastante para não dormir. Lembrem-se, sou leigo em ação e não me empolgo com efeitos especiais. A discussão sobre o crime e sobre o que a cidade precisa me pareceu simplesmente piegas. Ou seja: o filme não me divertiu nem me fez pensar. Me sobrou o Coringa, realmente uma performance brilhante. Cada vez que ele saía de cena e dava lugar ao inexpressivo Duas Caras e sua namoradinha insossa o filme despencava.

Claro, há questões interessantes que com boa vontade podem ser levantadas a partir do filme, há toda uma produção bem realizada, mas duas horas e meia daquela lenga-lenga foi demais. Que cortassem uma hora de filme e deixassem só o Coringa brilhar, com umas pitadas de Alfred e de Morgan Freeman, aí sim teríamos um belo filme para as massas e para mim também, que afinal nada tenho contra as massas. Nada tenho contra a diversão, desde que seja de fato divertida. Não gosto da postura arrogante de quem tem prazer de detestar algo que o grande público adora, só pra ficar se achando superior (Ver post sobre deslumbrados e elitistas).

Quando li que se chamava Cavaleiro das Trevas achei que era o do Frank Miller, mas não era. Quem sabe se um dia de fato filmarem este quadrinho clássico eu volte a me empolgar com o homem morcego.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Balanço cinematográfico


Neste primeiro semestre de 2008 os filmes que chamaram a atenção foram:
Into the wild (Na natureza selvagem), de Sean Penn. Retrato pungente e sem concessões de uma experiência radical, à la Thoureau em seu Walden: a busca pelo isolamento do contato humano, o refúgio na natureza como forma de transcendência. Um road movie que, além de tudo, tem a belíssima trilha sonora de Eddie Vedder.

Cassandra’s dream, de Woody Allen. Ele volta com tudo a Londres e a Dostoievski para mais uma tragédia moderna, no estilo de Match Point. Haja fôlego.

L’age des tenèbres, de Denys Arcand. Foi apelidado de “A era da inocência” no Brasil, mas o nome original é muuuuito mais adequado: A era das trevas. Alegorias medievais, problematização da fantasia e das estruturas burocráticas, é Denys Arcand fechando brilhantemente a trilogia que começou com o chato “O declínio do império americano” e engrossou em “As invasões bárbaras”.

Dois filmes “menores”, mas muito simpáticos também merecem ser lembrados:
Once (Apenas uma vez). Irlanda, de novo. Música, como sempre. Uma interessantíssima história de amor sem beijos, de emoção suspensa e delicada. Para quem odeia “comédias românticas musicais” e para quem as adora. O ator principal é o guitarrista no lendário The Commitments. O país do sotaque mais charmoso do mundo continua produzindo belos filmes.

My blueberry nights bem que podia se chamar Noites Azuis, mas recebeu o infeliz título de “Um Beijo Roubado”. Claro, vão dizer que Wong Kar Wai se vendeu para Hollywood, que ficou comercial e tal, como sempre dizem. Mas há muita coisa ali, isso há. Além da fotografia inconfundível, há temáticas diversas ao redor do eixo da busca da identidade e da superação da dor. O “caminho mais longo para atravessar a rua” é muito fértil e saboroso.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Minha Itália


Morar no Rio Grande do Sul é necessariamente repensar a Itália nossa. Para um brasileiro padrão e para boa parte do mundo a Itália é uma terra latina, passional, terra de artistas, inventores, gente extrovertida e comunicativa. Gente como o sonhador e desvairado Fellini, o refinado e contundente Lampedusa, o inigualável Ítalo Calvino, sem falar em todos os mestres da renascença e tantos outros que nos últimos oitocentos anos ajudaram a tornar o mundo um lugar mais inteligente, interessante e criativo para se viver.

Pois a Itália daqui não é nada disso. Ser “italiano” aqui é quase sinônimo de ser provinciano. É viver sob uma “ética do trabalho” que dispensa o pensamento que não sirva à produção e acha que arte e filosofia são coisa de gente desocupada e nociva à sociedade. É ser Weberiano sem ser protestante nem precisar ler livro algum, e nem sequer imaginar quem é Weber. É sentir desprezo por essa gente “preguiçosa” e de pele escura que eles chamam de modo excludente de “brasileiro”.

Racismo e sensação de superioridade em relação aos de pele escura não é privilégio deles, é moeda corrente em todo o mundo ocidental, inclusive na verdadeira Itália. O diferencial dos pretensos italianos do sul é que eles ignoram o outro lado: o da criatividade, da racionalidade, da grande contribuição que a verdadeira Itália sempre deu ao mundo civilizado. A minha Itália não é uma terra de agricultores provincianos e racistas. A minha Itália é uma terra de luzes, de Leonardo da Vinci, de Michelangelo, de Umberto Eco, Antonioni, Vittorio de Sica... Uma terra que pode até eleger um Berlusconi ou acumular lixo nas ruas de uma das principais cidades, mas uma terra de gente com idéias, com atitude, gente que é parte de tudo o que de melhor a humanidade já produziu.

Para não parecer tão amargo nem tão pesado, vamos dar crédito às coisas boas de nossa pseudo-Itália sulista. Eles trouxeram ao país a bela tradição do vinho, a comida maravilhosa e o melhor suco de uva do mundo. Bem que podiam ter trazido também a verve poético-anarquista-humanista que tanto caracterizou a Itália historicamente.

domingo, 6 de julho de 2008

Demonstração de Força


Era uma noite de inverno em Porto Alegre. Caminhei sozinho pelas ruas da Cidade Baixa, a região boêmia da capital. Meus amigos daqui, ironicamente, são brasileiros demais para ter o rock circulando nas veias. Não se abalariam do conforto de suas casas em uma noite como esta para ver uma banda cult de Liverpool. Fosse um samba, um frevo, um maracatu e eu teria companhia. Mas ao chamado ancestral do rock apenas eu respondo.

Ao meu lado, invisíveis, Marcinha e Baratão seguravam uma garrafa de vinho. Paulo Gótico contava alguma piada, Eddie e Marquinho riam. Wagner caminhava com um sorriso cínico, Renato conversava com o Ivaldo, Darlene ficava ansiosa e Adriana acendia um cigarro. Era apenas eu na Rua José do Patrocínio, éramos todos nós na Avenida Nazaré. Durante a semana eu bem que notei que os cavalos da cidade pareciam estar dançando, e a lua tinha se pintado de cores assassinas, antecipando a chegada deles.

Ian Mcculloch sempre gostou de cantar no Brasil. Desde aquela distante primeira vez em 1987, ano em que conheci a banda. Recentemente um amigo esteve em Belém e trouxe meus preciosos vinis, que incluem todos os do Echo dos anos 80. Um verdadeiro tesouro de trezentas peças reencontrado. Em 2008 os vinis do Echo & The Bunnymen estão completando 20 anos - coisa boa que fiz foi colocar sempre a data de compra. Para comemorar estas duas décadas nada melhor que um belo show, com todas as músicas clássicas, algumas de novas e mais uns covers de gente que vale à pena.

O Opinião estava lotado, a maioria do público com seus trinta, quarenta anos. Um ou outro adolescente perdido, mas nem vestígio de emos e outros animais contemporâneos. Antes do show, música pop dos anos 80. Nada da caricatura que querem vender como a imagem oficial da década. Os coelhos de Liverpool representam um lado dos anos 80 que a mídia atual prefere ignorar. Um lado refinado, poético, intenso, longe da imagem engraçadinha e meio ridícula vigente nas tais festas anos 80, cheias de cabelos ensebados, teclados chinfrim e roupas brega. Contra essa babaquice o melhor antídoto é a demonstração de força dos Bunnymen.

Depois de meia hora de espera a platéia já excitada recebeu Ian, Will e companhia. A abertura perfeita, a primeira música do primeiro disco: Going up, seguida da paulada de Rescue e de Villier’s terrace fazendo o bloco Crocodiles. Os arranjos cheios, densos, com duas guitarras, bateria, baixo e um teclado à la Ray Manzarek. A voz do Ian, ao contrário do que eu esperava, soou potente e vibrante, mostrando que mesmo após vários cigarros e caipirinhas ele dá conta do recado.

Após balbuciar algo sobre tocar no Brasil e sobre futebol, que a gritaria da platéia não me deixou ouvir, eles mandaram uma das músicas mais contundentes e simbólicas de seu repertório: Show of strength, que abre o álbum Heaven up here. A prova definitiva de que a psicodelia pode ser musculosa, de que o rock está impregnado da verve mais pulsante do fazer poético, e de que por trás de cada riff de guitarra, de Chuck Berry aos Strokes, ressoam as vozes de Rimbaud, Baudelaire, William Blake e tantos mais.

Ao vivo eles conseguem fazer canções como Dancing horses, Silver e Seven Seas soarem ainda mais fascinantes, mais cheias de nuances. O público pede The killing moon e Lips like sugar, mas antes é brindado com belas versões de The cutter e da recente Stormy weather, que muita gente canta junto. Os quatro pilares da música dos Bunnymen ficam claros nas citações e covers: David Bowie, Lou Reed, Jim Morrison e John Lennon. Após uma hora e meia de show eles voltam para o bis com Lips like sugar e Nothing lasts forever, entremeada de Walk on the wild side, para delírio da platéia.

Outra pausa, outro bis. Desta vez Ian faz todos cantarem e dançarem People are strange, criando um clima jazzístico de cabaré. Em seguida, a última canção da noite faz vários casais se beijarem, imersos em uma atmosfera aquática, lírica e épica: Ocean rain.

Aliás, um dos méritos do Echo & The Bunnymen sempre foi a capacidade de unir o épico ao lírico, com um leve tom de ironia e melancolia. Outra coisa importante: eles sempre foram a minha banda. Joy Division, Smiths, The Cure, R.E.M. e outras que adoro, são bandas de todos. Echo & The Bunnymen é diferente. É a banda que me diz respeito, que eu usaria em uma camiseta; muito do que faz com que eu seja a pessoa que sou hoje em dia. São, enfim, uma parte importante e inalienável de minha própria identidade. Todos que amam música sabem do que estou falando, e têm com certeza a banda ou cantor de estimação. No meu caso, junto aos homens coelhos, existe apenas um: David Bowie.

Saí caminhando tranquilamente pela noite fria, mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta, assoviando sozinho as canções da minha vida.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Bunnymen


Um pequeno comentário para junho não passar em branco: Semana que vem teremos outra vez Echo & The Bunnymen, a melhor banda de rock do mundo, em Porto Alegre. O Ian já não canta como antes, eu sei, e apenas metade da banda está tocando, mas a velha e inexplicável magia dos coelhos de Liverpool continua entre nós. E quando entra aquele solo de The Killing moon...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Outono


Agora que o outono chegou. Agora que o vento é suave no rosto, e a roupa fica mais pesada. Agora que os mais belos dias, aqueles com sol e frio, pedem licença para cobrir de folhas nossos tapetes. Agora que a atenção é contida, o olhar é espesso e a alma é grande. Agora que muito mais, lembramos enfim como pode ser agradável estar no Sul.

O Norte é a origem, a fonte, o mistério profundo e vasto. O Sul é o alívio, a ordem, a contenção necessária, o gesto preciso. Eu, ambos e nenhum. Trago comigo a espontaneidade (ainda?), o bom humor e o espírito nômade do Norte. Mas trago também um pouco de ordem, de disciplina, de rigor, precisão, leveza e melancolia da estética do frio. Talvez eu seja apenas Minas. Talvez um turco na Irlanda, um Nigeriano brincando nas ruas de Budapeste, um chinês em Pindamonhangaba.

Agora que o calor dá uma trégua, que se pode até entender que se goste do sol (será um deus o sol?). Agora é hora de abrir aquele vinho, tirar o Cortázar da prateleira, carregar o mp3 com discos do Spinetta e passear outra vez com Vítor Ramil pelas sete cidades da Milonga.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Alanos


Os Alanos, se os senhores lembram das aulas de história, foram um povo que durante a idade média viveu na região do Cáucaso, onde construiram o glorioso reino da Alania. Povo avançado, terra de sábios, guerreiros e poetas. Durante os séculos eles se espalharam por vários continentes, deixando uma contribuição única para a cultura mundial. Os remanescentes de nosso povo ainda habitam aquela região, hoje anexada à Rússia com o nome de Ossetia do Norte, ou simplesmente – Alania.

A lista de Alanos famosos é imensa. Com as variações ortográficas Allan, Allen, Alain e assemelhados, formamos uma legião que inclui Alan Moore, Alan Parker, Woody Allen, Alain Prost, Alain Delon, Allen Ginsberg, e muitos outros. Como o interesse desta vertente do Alanismo é voltado para as artes e humanidades, na próxima postagem começaremos nossa série quase didática com o maior escritor de histórias em quadrinhos de todos os tempos: Alan Moore. Enquanto aguardam, podem ir brincando de pronunciar Moore corretamente, ou seja: com som de /ó/ ao invés de /u/. O mesmo vale para Demi e Michael Moore.