sexta-feira, 3 de junho de 2011

Plebiscitos e os novos tempos



Estamos preparando agora o novo Brasil. Um pouco melhor que o de antes, mas ainda com muitos dos problemas antigos (corrupção, fisiologismo, conservadorismo, etc) e alguns novos para os novos tempos. Essa pulverização em diversos estados, que para muitos se apresenta como uma solução, me parece no momento mais uma maneira de fazer com que os velhos problemas se multipliquem. Nós gostamos tanto de nossos políticos que vamos dar a chance de eles se reproduzirem mais ainda! Mais deputados, senadores, governadores. Ao invés de criarmos desenvolvimento nas regiões mais pobres através de incentivos aos setores produtivos, estamos multiplicando o que temos de pior: o animal político.
            O que será do Parazinho depois da divisão? Já não somos grande coisa agora, mudaremos da noite para o dia? Vejam o exemplo do Tocantins: dividido de Goiás, não mudou grande coisa, continua com uma elite pequena e uma classe baixa bem ampla. Marabá será a nova Curitiba? Santarém vai virar uma Porto Alegre? Não acho muito provável, mas enfim, não podemos nos reter a nossa visão Belemcêntrica. O interior tem o direito de escolher seus próprios caminhos, mas baseado em outras regiões que conseguiram um padrão de vida melhor podemos ter certeza de que não são os políticos que puxam o desenvolvimento: é a cultura. Tem que estar na cabeça e na prática diária das pessoas a idéia de cidadania, de crescimento, de melhora. Na cabeça da maioria dos sulistas estas idéias estão bem claras. Nós, do norte, temos muito o que aprender ainda em termos de organização da sociedade de maneira igualitária e baseada no esforço e no mérito. Temos que aprender a repudiar o coronelismo e o populismo, e ser mais donos de nosso próprio destino. Temos que deixar de lado a auto-condescendência, a nostalgia e o fatalismo e olhar para o que pode e deve ser feito agora.
            Temos muitas coisas boas e muito potencial, mas o mundo está cobrando de todos uma postura ativa e corajosa agora. Para sobreviver teremos que nos reinventar, seja como Parazão ou Parazinho. Fragmentada ou não, a Amazônia está em uma encruzilhada. Belém vai completar 400 anos em breve, e temos que decidir se queremos comemorar esse aniversário de cabeça erguida, com bravura e confiança, ou se vamos continuar de cabeça baixa, dizendo amém aos Barbalhos e Maioranas da vida e sonhando com o que já passou.
            Eu vivo no presente, porque é o único tempo possível. É aqui e agora que dou meu sangue, meu suor e puxo toda a minha capacidade para ter uma vida mais digna, mais criativa e menos quadrada. Em que tempo vive o Pará? Em que tempo vive Belém? 
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sábado, 7 de maio de 2011

Mais uruguaio



Dizem que nasci e me criei no norte e que aprendi a ser homem no sul. Tudo bobagem: o que sou mesmo é uruguaio. Nada de carimbó nem de vanera: minha pátria é a murga, é o candombe, é a milonga. Quando as vozes todas da murga soam juntas, metálicas, ali é onde moro. Fui criado no Cuareim, forjado no Barrio Sur, destinado a caminhar tranqüilamente pela 18 de Julio em tardes elásticas. As vozes da murga são as vozes de cada humor meu, de cada gesto que já fiz ou que farei, de meu rosto estranho e cansado antes da meia noite. Minha cara pintada, meu cabelo mentiroso para agradar ao mercado de trabalho, meu tom, meu ritmo, minha sintaxe par-ti-cu-lar: bem uruguaio, improvavelmente azul e branco como as cores do Paysandú. Paralelo brasileiro: Minas Gerais, o mais próximo possível.
Meu texto hermético neste maio de 2011, meu texto para quem sabe ler: uruguaio até os cabelos escuros e a predileção por doce de leite.
Dizem que nasci no norte e que moro no sul do Brasil. Pouco sabem de mim. Mais saberiam se me vissem sentindo o que sinto quando os cinco compassos do candombe passam pelas ruas antigas da cidade aquela...
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pronto para a luta


           
Meus inimigos esperam minha queda, tramam em surdina, torcem abertamente contra. Eu me concentro, aspiro o ar revigorante e gelado do sul da América do Sul. Sei que quando tentarem dar o golpe estarei tranqüilo, ouvindo - talvez até dançando -  o Baião Psicodélico, e tomando chá inglês. Sem arrogância, sem baixar a cabeça: pronto para a luta. 

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Finalmente, bom senso


Este blog comemora o grande avanço social que é a legalização da união homossexual no Brasil. Seguindo a pioneira Argentina, finalmente apresentamos decisões maduras e honestas, que esperamos se estendam a outras áreas. A igreja católica mais uma vez se mostrou retrógrada e em descompasso com a realidade ao se posicionar contra, mas a votação no supremo foi unânime. Parabéns aos ministros que votaram, parabéns a este país, que a passos lentos – mas importantes, vai avançando. E um ovo podre na cara do deputado Bolsonaro, que não perde uma oportunidade de falar besteira. 

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sábado, 30 de abril de 2011

Heróis e túmulos


Terceiro rascunho. Como escrever sobre Ernesto Sabato? O homem que me fez “aterrisar” na Argentina, que me fez ficar desconfiado sempre que passava pelo parque Lezama, olhando em cada banco para ver se Alejandra estava à espreita. O homem que me entortou a cabeça com a loucura metódica de El tunel, que nos guiou pelos labirintos áridos de Abbadón el exterminador, e que quase completou um século de existência. Morreu hoje, aos 99 aninhos, esse velho antipático, genial, polêmico, que soube mergulhar nas profundezas da história da Argentina e nos recantos soturnos da alma de seus personagens (o miolo de Sobre héroes y tumbas é talvez a peça literária não-dostoievskiana mais inquietante que já li), o velho anarquista com seus livros loucos e maravilhosos!
Adeus Sabato, o último sobrevivente dos quatro gigantes que formam meu cânone pessoal da literatura argentina – os outros, evidentemente, são Borges, Cortázar e Arlt. Adeus ao homem, porque a obra vai ficar por muito tempo fritando nossas cabeças acomodadas. 
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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pedaço de outono


No outono, lembro que um dia já escrevi poesia. Hoje apenas correria, trabalho, objetividade. Uma pequena incursão pelos reinos abstratos, em pleno 2011:

Pedaço de outono

Espaçamento de antílopes
Córrego gotículas diamantes
Esta, a marcha da alma no bosque
Pequenas mãos que dizem oi
A respiração lenta dos ursos brancos
Após o jantar, a mesa e o que sobrou
dos sorrisos e das fitas
A marcha dos dias sem calor
No sul da América do sul
Um retrato em movimento
Desta vida, deste pedaço de
outono


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mineiros e argentinos


 

Vou assistindo uma bela vitória do Cruzeiro sobre o Estudiantes de La Plata, que acontece em estádio bem danificado pelo show do U-2. Um de meus times brasileiros favoritos, o Cruzeiro vai muito bem nesta libertadores, e nos intervalos entre uma jogada e outra vou lembrando de um argentino que sempre escuto nesta época do ano: Luis Alberto Spinetta, um dos maiores poetas do rock porteño. Curiosamente, em vários momentos ele me parece ter um quê de mineiro na composições, na entonação, no jeitão. Desde a primeira música de sucesso do ex-grupo dele lá nos anos 60, o Almendra, ele já soava como a versão Argentina do 14 Bis (comparação que se pretende honrosa para ambos, por favor).
            A construção das melodias, as texturas, tudo se encaixaria bem na música mineira, não fosse o idioma espanhol e certas temáticas bastante argentinas. Lô Borges ou Milton Nascimento não fariam uma música para o atacante do River, mas talvez fizessem para o Cruzeiro ou o Atlético... Não sei se um mineiro desenvolveria um tema como “Durazno Sangrando”, mas dá para imaginar o Flávio Venturini mandando “Alma de Diamante” com toda a propriedade, ou o Spinetta cantando “Um girassol da cor do seu cabelo”. 

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Os novos sete pecados



Acabei de saber que a igreja católica adicionou sete pecados aos famosos sete que já existiam. Os novos seriam atualizações para o nosso tempo. Não gosto de entrar em discussões de religião, acho que cada um sabe de si e vários caminhos podem levar à verdade, mas como o catolicismo tem muita força em nosso país, vale à pena analisar os novos pecados e nos posicionar.
O primeiro tem a ver com experimentos com células tronco. Entendo que precisamos ter limites éticos na ciência, mas historicamente a igreja tem se mostrado em descompasso com o conhecimento científico, quando não brutalmente contra os avanços tecnológicos. A ciência pode ser arrogante e cega às vezes, mas ainda é bem mais realista e democrática que a igreja católica. Essas pesquisas condenadas podem vir a salvar muitas vidas e aliviar o sofrimento de muita gente. Vai dizer para alguém que ficou paraplégico que a esperança de cura dele é um pecado...
O segundo é o uso de drogas. Concordo que qualquer exagero contra o próprio corpo e a própria saúde é prejudicial, só acho que devemos ter cuidado para não sermos hipócritas condenando quem fuma maconha enquanto tomamos nosso álcool bem tranqüilos, só porque de modo arbitrário em nossa sociedade um é permitido e o outro não.
Outro novo pecado: poluição do meio ambiente, este finalmente um belo acerto. Outro: agravamento da injustiça social. Nosso mundo é muito injusto, e a igreja católica muito contribuiu para isso. Interessante postularem a injustiça social como um pecado hoje em dia, espero que não seja só discurso.
O próximo é riqueza excessiva, e não posso concordar com este. Se a pessoa trabalhou honestamente, foi competente ou teve sorte, e se não enriqueceu como nossos políticos, acho perfeitamente justo que usufrua disso, que gere emprego e riqueza, e que aproveite o que conquistou. Chega de coitadismo, do discurso do pobrezinho conformado. Precisamos de gente empreendedora e muito honesta neste país, e sim, as duas coisas devem vir juntas – riqueza e honestidade.
O outro pecado é a geração de pobreza, o que corrobora o anterior: se temos gente empreendedora, ficamos mais ricos. Se somos honestos e respeitamos o mérito de cada um, temos uma sociedade igualitária e justa.
Último pecado: controle da natalidade. Os séculos passam e a igreja católica não aprende a lidar com a sexualidade humana de maneira adulta e responsável. Preferem continuar infantilizando as pessoas e tapando o sol com a peneira. Este último pecado é um grande desserviço a todos os fiéis, e contraditório com o pecado de não gerar pobreza: sem controle da natalidade, mais um monte de gente pobre no mundo, mais problemas de gente rejeitada pelos pais, etc. Os protestantes são sensatos o suficiente para permitir o casamento dos pastores, o que já um grande avanço.
Estes são os novos pecados de uma instituição muito antiga, que tem muitos méritos e inegavelmente faz bem a muita gente, por isso merece ser respeitada. Mas não podemos concordar cegamente com tudo, é preciso pensar sempre, mesmo sobre coisas que têm mais a ver com fé do que com racionalidade, porque estes pecados são criados historicamente, e acreditar que são pecados influencia no comportamento que teremos em sociedade. 

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sábado, 9 de abril de 2011

Nosso amigo, o outono



Todo ano, em abril, eu escrevo sobre isso: como é bom quando as temperaturas começam a cair, e o ano começa a valer à pena. Todo ano em abril meus movimentos ficam mais dinâmicos, as dores de cabeça diminuem, a disposição aumenta. É o outono que chega, é o alívio do não-calor e dos dias mais belos do mundo, com essa luz incomparável que só existe fora das regiões tórridas.
Sei que nesta época muita gente sofre com problemas respiratórios, assim como eu sofro com dores de cabeça no calor. Entendo e me solidarizo com estas pessoas, mas não posso deixar de dizer o quanto me alivia o fato de haver a mudança de estações, e a possibilidade de recomeçar. 
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sexta-feira, 25 de março de 2011

Viva o coronel


Pois aí está, a lei da ficha limpa só vale para a próxima eleição. Questão de ordem, eles defendem. Não dá para fazer as coisas assim, na bagunça. A lei tem que ser só para o ano seguinte ao da eleição em questão. Que país sério e organizado que somos, quanto orgulho em saber que cumprimos as leis de modo tão aplicado. Que bom saber que Jader Barbalho vai representar o orgulho e a dignidade do sábio povo paraense e brasileiro no congresso, ele não é um fofo? Ah, eu se ainda morasse aí na Barbalholândia teria votado nele, não é? Vocês são umas graças. Um beijão para vocês, é assim mesmo que se sai do terceiro mundo, valorizando nossos queridos coronéis. 
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quarta-feira, 23 de março de 2011

Paixões



Times de futebol despertam interesse, curiosidade, temas para debates filosóficos. O que desperta paixão são as mulheres, as obras de arte e o conhecimento. 

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sexta-feira, 18 de março de 2011

Mais gentileza


          
            Estava lendo sobre a tragédia no Japão, e me chamou a atenção o fato de que para cada notícia que abre comentários dos leitores há sempre gente xingando e ofendendo. Tudo o que acontece, tudo o que se faz é motivo de apedrejamento verbal. Se alguém quer ajudar as vítimas no Japão, vem alguém e ataca a pessoa porque ela não está ajudando a África. Se alguém defende os ciclistas atropelados em Porto Alegre, vai haver outra pessoa para defender o agressor, e assim por diante. A Internet é um campo aberto para a grosseria, as ofensas e os comentários superficiais.
            Aqui, vamos remar contra a corrente. Como já disse antes, estou cansado de gente que acha que ter atitude é falar o que vem à cabeça sem se importar com as conseqüências e com quem vai ser ofendido. Tudo bem, somos humanos, temos nossas preferências, eu já falei mal do sertanejo universitário, mas há limites. Ofender quem está ajudando as vítimas do Japão é além do limite. Agredir por agredir sem nem pensar antes é imaturo e só polui a Internet. A ofensa gratuita, que na vida real nos controlamos tanto para não cometer, na ponta dos dedos no teclado parece vir tão facilmente...
            Que ajudemos o Japão, sim. Que sigamos fazendo nossas coisas, sendo criativos, solidários e inovadores, e que os grosseiros inconseqüentes se intimidem, não nós. Gentileza gera gentileza. 

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quarta-feira, 9 de março de 2011

A grandeza de Porto Alegre



Mais uma vitória impressionante de um time que sempre surpreende: a conquista do primeiro turno do gauchão pelo Grêmio. O empate nos acréscimos, a garra e a capacidade de superação fizeram desta partida a melhor do ano até agora.
            Quanto ao Caxias, o time e a cidade, um detalhe: o único jogador que conseguiu marcar gol nas cobranças de pênalti deles era negro. Altivo, elegante, o único que se livrou do vexame. Lembro que quando visitei Caxias com um amigo aqui de Porto Alegre, ele estranhou sermos tão mal recebidos. Ninguém nos dava nem informação na rua! Nosso problema? Na época eu era cabeludo, e ele era e sempre será negro. Simplesmente. Um membro de uma das raças que tanto contribuiu e contribui para o que nosso país tem de melhor em tantas áreas, esnobado por lá por um detalhe desses.
O que desejo para Caxias é: que os seus melhores jogadores tenham a pele negra, reluzente, bela, épica. E que vocês um dia aprendam a lidar com isso, não só no futebol. Porto Alegre e o Grêmio (o Inter também) são grandes porque comportam gente de todos os jeitos, de todas as origens. Absorvem o que temos de melhor e nos ajudam a tornar o Rio Grande ainda maior. Porto Alegre é uma grande metrópole do Brasil e do mundo. Outras cidades que queiram esse posto têm de estar preparadas para a complexidade e a diversidade, ou então vão continuar sempre sendo provincianas e pequenas. 
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terça-feira, 8 de março de 2011

Quem inventou a natureza?


           Muita gente critica o homossexualismo por ser “anti-natural”. O que essas pessoas dizem, então, do fato de que em quase todas as espécies de animais ele existe, e não só quando há escassez de parceiros de outro sexo? Os animais, como os humanos, fazem isso porque gostam. Se existe com tanta freqüência na natureza, por que é anti-natural? 
A idéia de algo “natural” muitas vezes existe para justificar ações que são convenientes para determinados setores da sociedade e manter o status quo. Quem tem a autoridade de dizer o que é natural e o que não é? A quem foi dado o poder de legislar sobre, em última instância, o que é certo e errado? Será natural que as meninas gostem de rosa e queiram se vestir de princesas? E que os meninos gostem de carros e futebol? A natureza nos fez assim, ou só estamos mais uma vez tomando como natural algo que foi criado historicamente?
            Leiam este texto esclarecedor da revista Superinteressante sobre o tema. 
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quarta-feira, 2 de março de 2011

Sobre o funk carioca



Vamos lá, aproveitando o final das férias para mexer em casa de caba (“vespeiro” para os gaúchos), vou falar de funk carioca. Sim, ele mesmo, com suas popozudas e tchutchucas. Não vou malhar nem babar ovo, vou pensar a respeito.
O ritmo (ritmo mesmo, a batida, não o que o senso comum chama à melodia) é forte, e ouso dizer que é cativante. O funk tem um significado social bem claro também: é música de periferia que chegou à classe média, com todas as contradições possíveis. Eu, que sou emblemático em contradições, posso falar a respeito, já que venho da periferia mas sempre fui do rock, do cinema e da literatura.
Se o ritmo é forte, não se pode dizer o mesmo da parte instrumental. Não há arranjos sofisticados, é um som cru, sem refinamentos. As letras são agressivas, por vezes debochadas, chocantes. Algumas inclusive incitam ao crime e estão associadas a facções criminosas, que é o chamado “proibidão”. Há também demasiada repetição dos refrões para o meu gosto, o que deixa o ritmo meio monótono. A sexualidade é tratada de maneira explícita, sem rodeios nem metáforas: “cala a boca, não te espanta, eu vou gozar na tua garganta” que além de grosseira, é bem degradante para as mulheres - ou eu estou sendo ingênuo e perdendo algo da malandragem que faz com que muitas mulheres gostem e se identifiquem com esse tipo de letra.
Pensando bem, descubro que não gosto de letras com esse nível de grosseria, ainda acho que com sutileza se consegue mais impacto - tanto que os funks que consegui gostar são os mais light, como “se ela dança, eu danço” ou alguns do Claudinho e Buchecha. Para quem já foi punk na adolescência, é engraçado escrever essas coisas, mas o fato é que frases como “bate na palma da mão, balançando o popozão” estão tão longe da minha subjetividade quanto Chopin estava dos Sex Pistols. E eu não conseguiria me referir a uma mulher como “cachorra” com o tom de malandragem deles, é muito fora da minha realidade. Não é moralismo, é só uma subjetividade diferente. O funk americano me atinge bem mais, afinal é dele que vem o mestre James Brown, só que aí já é outro contexto.
Mas enfim, com um pouco mais de trabalho harmônico e umas letras menos rudes, daria para encarar. 
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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Adeus Moacyr Scliar e Benedito Nunes



Domingo triste para o Pará e o Rio Grande do Sul: no mesmo dia perdemos Moacyr Scliar e Bendito Nunes.
Scliar eu lia desde adolescente, quando caiu em minhas mãos um exemplar de A balada do falso messias. Aqueles contos estranhos, aquela atmosfera quase surreal me cativaram logo, e nestes últimos vinte anos outros tantos livros do grande médico porto alegrense me fascinaram: O exército de um homem só, A guerra no Bonfim, A festa no castelo, A orelha de Van Gogh... De nosso mestre Benedito Nunes ficam suas profundas lições de filosofia e literatura – um dos poucos brasileiros que explicava Heidegger, um dos que iluminaram nossas leituras de Clarice Lispector.
            Tristeza de norte a sul, e o consolo de que em algum lugar além de nossa compreensão estas duas figuras geniais estão travando um diálogo daqueles, com a marca da cordialidade e da sabedoria que tanto os caracterizaram. 

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Bate-boca amazônico

O que tenho a dizer sobre o bate-boca entre o Pará e o Amazonas é que Milton Hatoum é um tremendo escritor, que o Papão ganhou do Peñarol de Manaus lá dentro, e que todos tomamos tacacá e comemos cupuaçu, além de compartilharmos o mesmo rio, que é nossa grande estrada. 
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Gostos e respeitos

Sempre me questiono sobre o valor estético, o quanto ele é subjetivo e difícil de ser definido objetivamente. No post anterior expliquei que como o trabalho com a letra é muito importante segundo meus critérios musicais, os estilos que não privilegiam isso, para mim, são mais fracos. Por isso, o sertanejo universitário é esteticamente desprivilegiado em minha opinião. Isso não faz de mim nem melhor nem pior que ninguém, é só minha opinião, baseada em meus critérios. Outras pessoas podem dizer que letra é algo secundário, o que importa é o “ritmo” cativante e tudo bem, sejam felizes, mas meus critérios são bem claros: temos uma língua belíssima e muito rica, então vamos usá-la.Canção é letra e música, se desprezarmos um dos elementos, ela fica prejudicada.
Todos os estilos musicais podem conviver muito bem, sem ataques nem grosserias, se respeitarmos um princípio básico: não obrigar o vizinho a ouvir o que ele não quer, especialmente nos horários de silêncio. Mas escrever sobre o porquê de não gostarmos de um estilo específico acho válido como tentativa de compreensão dos critérios alheios, e talvez até como chance de ser questionado e entender o outro lado.
Agora vou encerrar e ouvir o fio de cabelo comprido, que já esteve grudado em nosso suor...
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domingo, 20 de fevereiro de 2011

"Universitário" com muitas aspas

            É comum ter uma certa resistência ao escutarmos algo diferente, algo que quebra nossas expectativas. Precisamos de tempo para nos acostumar. Jazz, música clássica, certos tipos de rock, há muitos estilos que não são assimiláveis à primeira audição. Mas o que dizer do que causa repugnância pelo contrário, por ser monotonamente igual? É o caso do sertanejo “universitário” - As aspas vão porque não se consegue explicar exatamente o que há de universitário na coisa.
            Musicalmente é o sertanejo de sempre com uma roupagem pop, harmonias óbvias, refrões fáceis, tudo muito sem stress, visando claramente o sucesso comercial. As letras, sempre as letras, o que fazer. Para mim letra é parte essencial da canção, e sim, é muito importante ser criativo nas letras. Há quem discorde, mas eu sou viciado em palavras, adoro letras bem construídas. Então, não há como gostar dessa nova geração de sertanejo, nem entender porque diabos eles são “universitários” (e as aspas vão sempre). Paixão rimando com coração, festa rimando com diversão. E só. Os dois únicos temas que 90% da música popular consegue abordar, sempre de maneira burocrática e preguiçosa.
            Bem pouco, não é? Para a tradição da canção brasileira, bem pouco. Temos um século de canção popular, centenas de obras primas, dezenas de compositores geniais, e vamos abrir mão de tudo isso para ficar com esses caras? Que se dane Chico, esqueçamos Cartola, ao diabo com Renato Russo e Chico Science, quem quer saber de Noel Rosa e Cadão Volpato. Coração e paixão, viva a festa, é só o que conseguimos articular. E assim gaguejando, satisfeitos com tão pouco, vamos levando este país para a frente. Quem deixou essa geração passar no vestibular da música brasileira?



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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Itamar propõe voto de adultos


Finalmente um político tem a coragem de propor o fim do voto obrigatório. E é ele, quem diria, Itamar Franco. Tomara que passe, e que a próxima medida seja a redução drástica do número de deputados e senadores no congresso, assim como redução do salário deles. São centenas de sanguessugas mamando em nossos impostos, uma grande vergonha para um país que acha que está se tornando primeiro mundo. Estamos um pouco melhores, mas ainda muito, muito longe de ter uma democracia decente. Ainda estamos discutindo o básico do básico, que é a obrigatoriedade do voto. Nunca pensei que diria isso, mas desta vez Estamos com Itamar Franco!



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